30 dezembro 2010

...

Está tudo tão abstrato, ou eu preciso de um novo óculos? Quem se importa, afinal, após passar uma noite inteira regado a Dylan, Pink Floyd e Radiohead, é necessário dormir, comer, pensar?
Não, somente sentir! Acho que preciso de férias, ando muito cansado. Mas estou de férias, portanto eu preciso... de que? Essa sinceridade exagerada ainda me mata...
Vou beber alguma coisa, talvez distraia minha cabeça, talvez eu desmaie.
Sempre o bom e velho "talvez"!!
"Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Acredito no coração"

...

o limite da morte é o diabo do medo;
o limite do medo esbarra na doce liberdade de existir;
enquanto passa, eu vejo o tempo,
enquanto é tempo, eu passo rápido;
atravessei a rua sem olhar para os lados;
Deus me disse "cuidado filho";
eese é meu limite;
limite de mim e fim;
ponto, merda. Acaba-se em sonho, em desejo,
algo inenarrável;
sim, sim;
só isso e mais nada
afinal, a morte me espera também.

29 dezembro 2010

Uma carta sincera

O tempo rompia-se em raios amarelos de sol. Era manhã e eu estava exausto, após tanto pensar em você, minha pequena. Desde cedo, muito cedo, na realidade, mais cedo do que gostaria de admitir, venho sendo tragado por essa sua poesia irreversível.

É lindo, minha pequena, simplesmente lindo. Só de pensar em querê-la e tê-la pelo menos uma vez, com sorte, duas, fico extasiado. Talvez um dia você entenda as palavras tontas que escrevo aqui, de maneira tão tonta. Seria desleal descrever o que sinto, porém, uma infidelidade tremenda se não externasse tais emoções. É tudo muito complicado, mais complicado que explicar seu primeiro porre para alguém, afinal, porre é porre, e o primeiro é sempre o mais divertido. Não que você me deixe bêbado, lógico que não, mas a minha atração por ti é maior do que meu orgulho machista gostaria de revelar, minha atração por ti é tão física quanto emocional, um emaranhado de abraços e ilusões... Será que isso existe? Às vezes me pergunto se é tudo invenção da minha cabeça. Se fosse, que fosse sem fim, que fosse nessa bossa nova que só eu entendo.

Porém, não posso perder o foco. Escrevo agora, no começo de um novo dia, com novas pessoas, novos carros no trânsito, novos prédios explodindo, novas crianças nascendo. Escrevo agora porque há milhões de novas miudezas acontecendo e só me importa pensar nos seus olhos, que são os mesmos, os seus cabelos, que continuam da mesma forma, teu sorriso, enfim... A mesma que eu conheço e pasmo ao ver, com tantos detalhes diferentes, interessantes. Provavelmente entrei em contradição, mas você é assim! E me deixa assim também: deliciado, louco, muito mais louco do que, de fato, sou. Talvez seja esse mistério que te envolve, talvez a falta de mistério que te mascara, talvez eu que não saiba definir. Não é paixão, entende? Tampouco ódio, mas mesmo indeciso, entendo que existe algo, um tênue sentimento, que ganha proporções a cada dia.

Quem sabe em outra manhã ele exploda e eu morra de felicidade. O que você acha?

Estou sendo sincero, o mais sincero possível! Sinto falta, ciúme, paz, será que você pode me explicar o que é isso? Mas não estrague, por favor, pois estou me divertindo. Ultimamente tenho escutado música, de todos os estilos, e as que eu mais gosto são aquelas tranqüilas com ritmo de praia, violão ao fundo, cheiro de mar, vento fresco e a voz suave no refrão fazendo coro à minha. É tão natural, como respirar, dormir, comer.

É natural como poesia, e eu nem gosto de poesia. Estou rindo nesse momento, sabia? Espero que saiba, espero que sinta. Desculpe se sou um transtorno, um erro patético, mas, se devo ser sincero, não gostaria de me desculpar. Sou eu mesmo, só eu na mais completa imperfeição de ser.

Escuta comigo um pouco da música. Consegue escutar? Agora o cantor sai do compasso e fala palavras bonitas, quase estúpidas! Continuo rindo.

Desculpa-me se eu não sou perfeito, não tenho as qualidades de um campeão.
Desculpa se eu não sei dizer “te amo”. Mas e daí? Há outras expressões até mais bonitas do que essa.

Ou não.

Tenho que ir, estou com calor e com fome e com os olhos doendo. Daqui a pouco vai chover, tenho certeza, esse sol não me engana. Vou para casa. Vou para qualquer lugar. Por enquanto estou sozinho, desacompanhado. Mas o sorriso ainda está aqui, bem colocado no meu rosto, rindo de tudo, sorrindo pra todos.

Pra você, pra mim...

Pra sei lá quem, sei lá onde, sei lá.

“Hey, hey, hey

Your lipstick stains
On the front lobe of my left side brains.”

24 novembro 2010

Distante

Feito sopro, partiu voando.
Despido de pudores, sumiu entre nuvens e querubins,
Colecionando olhares curiosos
Dos desatentos seres mortais
Que, esperançosos, pediam socorro.

E recebiam maldade.

Ele, sem nome ou descrição,
Pedia, entre estrelas e constelações,
Um sempre vivo gosto de viver.
Já que vida é uma questão metafísica,
Explicada pelos metafilósofos, que na metalingüística
Encontravam respostas.

Mas ele nunca gostou de metas.
Preferiu, desde criança, as aventuras do invisível.
Poetazinho de nada, sujo de lama,
Via brilho na desgraça mundana das palavras simples.

Dizia-se socialista.

“Aos ricos devemos tirar cifras,
Aos pobres, dar carinho”

E a mim, um pouco mais de amor,
Constantemente amor.
Uma entrega insaciável de paixões carnavalescas.
Com cores e deslumbres diferentes.
No abre-alas, as orgias da paz.
Na bateria, o anseio sorridente.
No grand finale, as sobras de alegria
Despejadas em jarras douradas.

Muito carnaval!
Pouca infidelidade!

Ele foi embora mesmo assim.
E não há quem mude tal fato.
Ele deixou de lado seu ideal.
Tornou-se indigente no caleidoscópico
Existencialismo fútil.

Sua presença foi dita desnecessária.
Portanto, desapareceu sem deixar vestígios.

O anárquico idealista esqueceu-se
De como deveria amar.
Deprimido, largou tinta e pena,
Papel, relógio, calendário e roupa velha.
Colocou seu coração num envelope
Com destinatário.

Mas a entrega não aconteceu.

Na infinidade da censura,
Deparou-se com a hipocrisia dos leigos.
Achou graça disso, brincou.
Mas, por dentro, chorava a insanidade
Dos loucos bêbados.

Bêbados trépidos e...
...Circenses.

A última criatura que o viu
Foi a Lua.
Contam que seu rosto estava vermelho,
Seus olhos inchados.
Lágrimas escorriam por entre as bordas
De solicitude que sobressaiam de seu sorriso
Infeliz.

Talvez paixão.
Talvez fim.

E ela lhe disse, do alto de sua prateada
Sabedoria milenar, com todas as palavras:

“Vá com Deus...”

25 setembro 2010

Do Tempo Dela


Contava romances cinematográficos.
Chorava sem querer, por motivo algum.
Brincava de amor, amar, fingir e ser. Mas só brincava.
Ria, ela ria coitada. Mas os outros não riam junto.

Seus átimos de alegria e tristeza, seus picos de aspereza e lonjura.

Seus instantes.
Íntimos demais.
Doces demais.

Se cantava, o fazia por distração.
Se chovia, corria para a rua. Gritava por gritar e viver.

Estava cansada.
Estava sozinha e desolada e ambígua.

Prendia os cabelos e soltava-os.
Enrolava-os nas mechas de paixão que pendiam de seu sorriso.
Sonhava de vontade, de prazer.

Era a beleza inconsolável.
A fineza justa e bem-medida.
Sua Majestade vivia de infinito.

Infinito sempre, sempre até morrer.
Talvez princesa.
Amante, amada.

Enclausurada nas nervuras da incompreensão.
Sim, enviuvada de namorados de ilusão.

Completa noiva sem altar.

Criança, menina, mulher.

Única.

27 julho 2010

A Angústia de um Anjo

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
Afinal, que vale um peito inerte diante da saudade?
A morte da ternura, frente à angústia da incerteza?
De que vale a explosão de um “sim”, comparada
Ao mais sombrio “não”?
Infelizmente, sem seu sorriso, o teatro perde a arte,
O circo deixa de ser engraçado e o palhaço fica triste.
Sem a sua presença, o anjo perde as asas...
E caí do Paraíso.

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
E o amor fará sentido.
Minha idolatria será recompensada, e a solidão:
Meu fim e meu começo virão me buscar de braços abertos.
Então, ofegante, recusarei o esquecimento,
Com medo de ser esquecido por mim mesmo e por você também.
Galgando devagar, subirei sua escada em silêncio.
Espreitando seu sono na madrugada aveludada.
Olhando seus olhos, sem que tu olhes os meus.

Mas, quando faltar-me, de todo, o ar,
E minha voz cair na solicitude de seu desespero,
Meu coração ficará inchado por dizer adeus.
Irá buscar forças na filosofia do riso, nas zombarias do humor.
Lágrimas cairão sem que eu queira.
A magia do perdão estará presente e bem comportada.
Ficarei, aos poucos, vago, quieto.
Rezarei uma última vez, confessando pecados de homem humano e imperfeito.
E logo, minha ausência será memória...

E você... Continuará sendo a intermitente paixão de meus suspiros.

21 julho 2010

Ahnn...

"...Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só..."


...mas eu continuo só.

E sem luz na minha escuridão. Não é verdade?

16 julho 2010

O Vão da Porta 4


Turbulento... Foi tudo desmedidamente turbulento para mim. Não sei ao certo em que momento, mas agarrei-me ao seu corpo inerte na tentativa de acordá-lo. Meus braços envolviam todo o seu peito e suas costas, sua cabeça pendia, suas mãos abriam-se completamente impotentes. Lá estava eu, segurando aquele que me fez rir e chorar por tanto tempo. Lá estava eu, pranteando um sujeito inconsciente, com a tola esperança de que minhas lágrimas tardias ressuscitassem o estranho que invadia o tão conhecido aconchego da minha introspecção. Não soube o que fazer, além de chorar, claro. E também não sei explicar o motivo de tal atitude, já que ele deveria ser para mim um sinônimo de repulsa. Sei apenas que os minutos escorriam no relógio da cozinha, com aquele tique-taque insuportável...
O amarelo que entrava pelas cortinas entreabertas indicava uma manhã fria, diferente das demais. Meu coração indicava reações diferentes das demais. Meus olhos evidenciavam tal fato.
E, novamente digo: tudo que fiz foi esperar um maldito milagre. Ou um sinal de que ele não voltaria a me olhar com o tão inflamado jeito de apaixonado arrependido. Em português claro: esperava vê-lo morto, quem sabe assim eu não me colocasse em posição de risco outra vez, não me humilhasse diante de um mero sentimento. Se ele morresse, sem dúvida, eu sentiria dor... Uma dor jamais experimentada por mim ou por qualquer maldito poeta, escritor, filósofo.

Porém, seus olhos abriram após dois ou três minutos. Dois ou três longos, aflitos e nostálgicos minutos de reflexão.

Silenciosamente, seus olhos foram abrindo pouco a pouco, mostrando o clarear da vida. E é justamente essa à hora na qual me encontro.
Minhas pernas estão dormentes, meu rosto está inchado, meus lábios úmidos pelas tantas lágrimas que continuam brotando sem que eu me esforce ou queira. Meus pensamentos disparam feito tiros no meio da escuridão. A mais profunda escuridão que já enfrentei. Uma obscuridade permeada de arcanjos caídos, corrompidos pelo medo de sentirem-se mais e mais humanos... Ou, o meu medo de ceder novamente às tentações.
“Oi...” Suas palavras saíram inesperadas, fragmentando meu raciocínio obtuso.
“Não diga nada agora, por favor.” Meu pedido foi sincero, visto que eu precisava esclarecer alguns pontos, antes que ele se levantasse e caminhasse pela minha sala. “Eu queria... Dizer algo que está preso na minha garganta. Preciso desabafar, porque é impossível continuar dessa maneira tão insuportável. Não posso olhar para você sem lembrar do que houve, quando éramos jovens. E, de repente te vejo na minha porta, esperando um convite de boas-vindas com o meu melhor sorriso de surpresa. Maldita surpresa! Meu universo ficou em choque, eu fiquei em choque!” Preciso fazer uma pausa de vez quando, escolher as melhores palavras e organizar as idéias para não perder a compostura (porém, é impraticável não transparecer a minha fraqueza, pois ele me deixou fraca).
“Se tivesse que fazer um apanhado geral, recapitular os últimos episódios de minha vida e dizer o motivo exato pelo qual os vivi, precisamente neste instante diria que foi tudo por você. Cada agonia enfrentada, cada palavra de solidão, a própria solidão, enfim, todas essas desventuras foi você quem causou, querendo ou não.”

Mais uma pausa dramática. Não sei quais termos usar.

“Quando menina, meu único sonho era encontrar o famoso príncipe encantado das fábulas. Na realidade, eu esperava que pudesse viver em uma constante fábula. Não tive tempo de conhecer meu pai. Meu avô sempre teve uma saúde frágil e minha mãe, bom... Você sabe tão bem quanto eu que ela vivia à custa de sua ilusão. Mas minha infância foi boa. E minha adolescência foi melhor ainda, principalmente depois que te conheci. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que nos vimos: estávamos em lados opostos do corredor, andando cada um com seus materiais e suas preocupações. Esbarramos-nos e eu te olhei de um jeito feio. E voltamos a nos esbarrar mais umas três ou quatro vezes (em uma delas eu tropecei, você quis me ajudar, mas recusei por orgulho...). Conversamos, como duas pessoas normais (como se adolescentes pudessem ser normais) na festa de quinze anos da minha amiga, que te convidou somente para nos conhecermos bem...” estou rindo, confusa e melancólica. Ele parece estar recordando esses dias dourados. Acredito que assim funcione uma iminente recusa: você diz que precisa despejar as tais verdades abruptas, começa com o passado mais que perfeito em que ambos vivam paixão, imprudência, aventura e romance. A pós-memória, porém, é outra história.

História essa pertencente ao particular dos casais... E o meu particular determina que eu continue falando de dias nos quais nos amávamos e rolávamos na grama sem as atribulações existentes hoje. Sem as despedidas que não foram dadas... As partidas repentinas...
“Escuta, por...”
“Não, não fale nada, por favor, deixe-me terminar, antes que isso me consuma, antes que eu não consiga respirar sem olhar o nosso caso mal terminado. Afinal...” Não chore, não chore, agüente mais um pouco, falta muito pouco...

Caí em fraqueza, sucumbi diante de minhas próprias desculpas.
Chorei.
Por um átimo de segundos, me arrependi de todos os erros cometidos.
Entretanto, logo essa sensação viajou para além de minha compreensão. E sumiu...

Ele se levantou ainda meio zonzo. Não pude e nem quis ajudá-lo. O que senti foi mais forte, arrebatador, eu diria. E continuo sentindo. Falar com lágrimas quentes rolando de seus olhos, passando pelo nariz, escorregando e invadindo cada canto do seu corpo como um intrometido que vigia, vasculha e sente prazer em vê-la sofrer piora em muito as condições de quem pretende argumentar...
Ou seja, não estava em condições de dialogar. Ainda não estou. Descrições são de bom tom, não é? Pois bem, mesmo com a visão embaçada, vejo-o sentado no sofá que fica exatamente ao meu lado: está com a cabeça baixa outra vez, provavelmente pensado no que eu estou pensado, tentando processar todos os fatos, todas as recordações e, esforçando-se para não chorar junto comigo.
Sim: essa situação toda pode parecer um extenso monólogo, mas as condições, as palavras, a paixão por trás da paixão. Tudo isso me motiva a continuar projetando um falso amor, uma esperança frágil, sensível como eu, doce da mesma maneira como eu era doce antes de me encontrar na solidão.

Está na hora de retomar o controle. Está na hora de finalizar.
“Eu te amo, é tudo o que posso dizer em relação ao nosso caso. É tudo que me resta, sairei ferida em mais uma ocasião e, por mais esforços que façamos, nosso conto de fadas chegou ao fim. Chegou ao fim exatamente quando você evaporou da minha vida, criando pústulas em um canto muito espaçoso do meu coração.”
Mais uma droga de pausa dramática em que pensei se deveria ou não falar. Eu falo.
“Sabe, por muito tempo me questionei: por que fugi de casa? Por que abandonei os caprichos que tinha? Por que você não me levou junto contigo na sua tão gloriosa empreitada? Por que me torturei tanto tempo sentindo essa saudade latente no peito? Mas, felizmente encontrei resposta: Eu nunca quis me separar de você. Nunca quis encarar uma realidade em que nosso relacionamento, do dia para a noite, não existisse mais. Vi por vezes o nosso primeiro encontro “oficial”, por assim dizer, quando combinamos de matar aula de química e nos encontramos na escadaria da escola, aquela que dava acesso ao refeitório. Ninguém nos incomodou naquela tarde, pois só existiam nosso ardor e o singelo amontoado de rosas roubadas por ti e oferecidas a mim, o qual chamei carinhosamente de buquê. E, interiormente eu agradecia a minha amiga por ter te convidado para a festa dela, sem ao menos conhecê-lo direito, com o único intuito de me ajudar, ou nos ajudar. Nós duas conversamos até hoje, sabia? O mais irônico é que ela é casada, tem um filho e está grávida de seis meses também. E esse eu esperava que fosse o nosso final... Ficar contigo para o resto dos meus dias parecia ser um compromisso simples. No casamento dela, eu fui madrinha e não parei, um só instante, de chorar. Não chorei por ela, chorei por mim. egoísta, não é mesmo? Tudo porque eu acreditei em promessas de adolescentes bobos.”

“Não diga isso”, ele sussurrou ao pé do meu ouvido, enquanto eu, sentada no chão na mesma posição há horas, contava minhas amarguras a um sujeito que não me é mais familiar. Olhei para frente tentando digerir a última frase. Impraticável. Impossível.

Injusto comigo e com meus sentimentos.
Por Deus, em qual hora estamos? Quanto mais demorarei a chegar aonde quero? Se é que quero chegar a algum lugar.

“Na realidade, nunca quis desaparecer da vista da minha mãe, nem abandonar meu avô, minha casa, meu quarto, minha cama... Eu gostava daquele espaço e havia aprendido a conviver com as pessoas que o habitavam. Mas queria te encontrar. Queria me encontrar. Como uma garota rebelde foge de casa e deixa o celular ligado para atender quando lhe for conveniente? Simples: Ela não o faz, esquece celular, telefone, qualquer meio de mostrar as caras. Portanto eu não fugi. Apenas dei um descanso a mim. E, me tornei extremamente egoísta, me tornei uma criatura insensível.”

“Você não parece tão insensível assim. Continua a mesma...”. Não podia suportar comentários desse tipo, vindos dele. Ou de qualquer outra pessoa. Rejeitei esses murmúrios, tentei afastá-los ao máximo. Tentei...

“Sempre que escutava nossa música tocando nas rádios, eu parava, onde estivesse, como se aquela música fosse o meu hino, um símbolo de paz, um lugar aconchegante, onde as lembranças eram ternas, como em um trailer de filme americano. E todos os nossos melhores momentos voavam na minha memória. A memória da garota estúpida. Da sonhadora infeliz. Da imbecil que... da imbecil que acreditou nas suas promessas!!!!!!!”

“Não, isso não é verdade, eu sou o culpado...”

“Nós dois somos culpados, e agora pensamos em cometer o mesmo crime de novo? Que tipo de criminosos nós somos? Não possuímos a capacidade de admitir sermos péssimos no que fazemos?”

“Deveríamos experimentar uma segunda chance...”

“Não dará certo, isso te garanto. Ficaremos presos, enjaulados nessa insanidade...”, dessa verdade ele não poderia escapar.

“Cause it's you and me and all of the people
With Nothing to do, nothing to lose
And it's you and me and all of the people and
I don't know why I can't keep my eyes off of you”.


Ele cantou o refrão da música. Ele ainda se lembra. Está na hora de encarar meu problema de frente. De olhá-lo nos olhos. Os malditos olhos que sempre pedem perdão.

“Quer cantar mais uma vez?”, pergunta tola, é claro que quero.

Passar o resto da manhã cantando a música que embalou meus sonhos de jovem apaixonada sem dúvidas é um capricho diferente. Triste, doloroso, mas necessário. Por um instante pude ver a praça onde costumávamos fazer esse tipo de coisa. Vi as crianças correndo atrás de cachorros, os senhores de idade jogando damas. E outros casais apaixonados.

Porém, não tão apaixonados quanto nós dois.

O frio crescia conforme o tempo passava. O sol ficava mais forte. Lá fora, o dia passava depressa ou devagar demais. Sinceramente não reparei nesses detalhes.

Nós dormimos no sofá por três ou quatro horas, acredito.
Foi bom. Todavia, é preciso terminar.

Dizem que, ao entardecer os mais íntimos desejos ganham ânimo, fôlego de vida. Os meus, porém, iam morrendo em uma quietude sepulcral.


“Eu nunca quis te abandonar. Muito menos deixar de amar você. Apenas fui fraco...”, eu sabia disso, ou pelo menos suspeitava.
Queria crer que fosse verdade.

“Eu nunca deixei de amar você, mesmo que pareça masoquista, insano ou clichê. O que significa que eu te amo. Ainda.”

E isso deve acabar. De maneira indolor. Bom, seria ideal assim, mas a realidade nem sempre é essa.

“Já está na hora?”, sua pergunta aliviou um peso das minhas costas, como sempre acontecia quando ele via que eu não suportaria dizer algo.


“Sim... Já está na hora.”

“Um último beijo de adeus?”

Será que devo? Será que isso me fará bem?Tantas perguntas e nenhuma atitude...

O fim de tarde não ajudava a diminuir a pressão sentida contra meu peito.
Talvez fosse amor, talvez fosse ódio, ou um misto dos dois.

O tempo passou depressa para mim, para ele, para nós dois e para ninguém mais. Eu derramei minha última lágrima por ele.

Acredito que isso basta.

“Me desculpe, mas não posso...”

“Nós nos veremos?”

Uma questão peculiar. Somente o destino tem poderes para responder.
Meus argumentos acabaram. Minhas táticas também.

O melhor a fazer é abrir a porta. Esperar que ele vá embora. Desejar boa sorte e até mais ver.

Pronto, a porta está aberta novamente, porém desta vez eu a abri para que ele saía de mim, do meu coração, da minha história.
Do meu passado não, afinal ele foi lindo demais para ser esquecido.

“Cuidado para não desmaiar outra vez, sim?”
“Claro, claro...”, ele cambaleou até a porta... Que fosse charme, chantagem, não funcionaria comigo. Não mais. A partir do instante em que ele atravessou minha porta e saiu da minha intimidade, eu não o ajudaria por um período indescritível.

E saiu. De uma vez por todas.
Para sempre enquanto o sempre existir.
Para o bem dele, e principalmente, para meu bem. Para a minha sanidade. O que restou dela.

Antes de sumir de vista, ele olhou para trás uma última vez e, movendo os lábios sem pronunciar som algum, disse: “Eu te amo!”

Assisti a essa cena, querendo não pensar nem sentir... Peguei algumas pétalas do buquê, que ficaram caídas na soleira.
Coloquei o buquê em um vaso...
Lavei o rosto...
Escancarei as cortinas para observar, atenta, a noite taciturna, despertando-se ligeiramente em um azul infinito, pincelado de estrelas prateadas e vibrantes, com alguns mistérios cá e lá, escondidos.

...E finalmente fechei minha porta.

07 junho 2010

Um leitor, uma pintora e um sonho de alegria


... Era uma vez um homem. Era uma vez uma criança. Era uma vez um sonho... O homem pegou um livro, a criança pegou um lápis, o sonho continuou na memória...

***

“Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios”

***

... Os dias foram passando, as pessoas melhorando, o mundo havia voltado a girar. O sol agora sorria, as rosas já não mais murchavam, os olhares desmentiam a indiferença... Tudo fazia sentido. O próprio sentido tinha sentido. Mas o luto persistia, o homem só fazia chorar. Abandonar o seu equilíbrio, capa de cortesia, decência intimada, palavra errada?

...Seria a loucura, a beira do precipício, o grande aviso, a derrota dos inabaláveis? Mas, e o sonho, onde fica nisso tudo? A criança ainda existe? Calma, meu amigo, pra tudo há seu tempo. A beleza da poesia está na magia com que as palavras são colocadas, decoradas com sucesso, bem acentuadas, quase perfeitas, quase... Eu não sou fã de poesia.

E, tocando dessa maneira nossa prosa, a criança tocava sua arte, gostava de pintar (apesar de não saber diferenciar as cores), achava graça do azul, preferia o vermelho (apenas um borrão mais intenso). Nada lhe afetava, nem mesmo a própria inabilidade. O outono começara. As folhas desprendiam-se das árvores, ganhavam o chão, terra firme, segura. O vento açoitava as noites, a depressão arrebatava aquele ser, o luto, a profundidade do abismo, o sarcasmo, o cinismo, a falta de hinduísmo... Ele tentaria a felicidade, se conseguisse alcançar a margem dessa praia...

***

“Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador”

***

Sonho? Que sonho é esse? Que esperança ainda resta, além da ida até a ponte, o sol, o crepúsculo, o horizonte? Bom, pelo menos o sonho não está mais na memória... Agora ele é potência, carência de alguém... Mas, ele tinha planos, gostaria de idealizá-los, transformá-los em uma entidade suprema, reluzente, um sol, uma saída, uma nova vida...

***

“Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos”

***

Quando menos se esperava, a criança falou: “Papai, vem cá ver o que eu fiz... Vem papai, por favor...”, antes que as lágrimas começassem a rolar de seus olhos e delinear suas rugas, o homem, sem vontade ou vivência, abriu caminho em meio aos seus desesperos, para poder socorrer quem sentia maior necessidade... E, ele disse: “Diga, minha filha, o que você fez?”, e a criança, uma garotinha, no máximo seis anos, doce, ternura em pele clara, doçura em tamanho de boneca, alegria móvel, motivação espontânea, brilho sincero: “Eu desenhei papai, eu desenhei você, eu desenhei a mamãe, a nossa casa... Mas eu não consigo desenhar o Mike... desenha pra mim, papai? Por favor!”, “Claro, eu desenho seu cachorrinho pra você, se isso te deixar feliz...”, e, ele derreteu-se em um breve momento de ternura... “Mas, papai, isso vai te deixar feliz também...?”, ele não pôde conter uma gotícula, transparente, minúscula, carregada de dor, carregada de passado...

E respondeu: “Vai sim, minha filha, claro que vai...”.

As horas poderiam se passar, as páginas do calendário poderiam até voar, eles continuavam seu ofício, sua distração... Se o mundo acabasse naquele instante, eles morreriam felizes... Pai e filha, um ajudando o outro a aliviar o peso da perda, o amargo gosto da intemperança... Traição do destino, família incompleta, o insuperável desejo de pular por uma janela aberta...

Mas, sempre há um sorriso pra se difundir, uma pessoa a se alegrar, um monte de gente pra acalmar, uma historia pra contar...

***

“Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz”
Charles Chaplin

***

E, sem muito a desmentir, mentir, iludir uma platéia, ferir uma idéia... Era uma vez um homem que não pretendia continuar lendo, ele tentaria viver, apenas vivendo. Uma criancinha que ia pedir a ajuda de seu pai quantas vezes fossem necessárias, com isso, tornar-se-ia uma ótima pintora... E, um sonho, o sonho... Bom, esse deveria luzir, oprimir e devanear, esse era seu papel, contudo, ele havia se tornado real... Uma concretização, iluminação, as portas de um mundo inaugural...

23 maio 2010

O Vão da Porta 3



Ligeiramente trêmulo, estendi o arranjo de rosas.

Nesse instante meu corpo todo se rendeu a um frenesi, um estado caótico em que minha cabeça parecia girar incontrolavelmente.

Uma deliciosa sensação de bem-estar invadiu minha alma. Quero falar. Será que devo? Não... Ainda não. Enquanto abria lentamente a porta, fui colocando meus pensamentos no lugar, ajeitando a bagunça, ou pelo menos parte dela. A minha bagunça, a minha insana ganância por aventura. Afinal, estragar esse momento tão único seria um tiro no próprio pé.

E o que menos quero é sair ferido.

Mas os princípios de falha desapareceram, agora que você tocou em minha mão e aceitou, mesmo que relutante, a minha primeira prova de arrependimento.
O nosso recomeço.

“E então, quer me dizer alguma coisa?”, seus olhos continuam os mesmos e suas palavras, tentando disfarçar, transpareciam uma ponta de carinho.

“Várias coisas... Você quer escutar agora?”. O medo de me explicar, sem saber quais argumentos usar contigo, gelou-me. Todavia, sua cabeça girou de um lado a outro, negando o desejo de escutar meias verdades. Com a porta completamente aberta, esperando minha entrada, pude ver o interior de seu refúgio; um ambiente somente seu; perfumado, limpo, aconchegante, discreto...

Desculpe, mas vou invadi-lo novamente.

Vou ingressar nessa última aventura antes de dizer que te amo. Uma aventura que vivi anos atrás e não consegui esquecer. Talvez porque tenha sido muito bom. Talvez porque eu tenha gostado demais de você.

E... Ainda gosto? Ainda espero de ti compreensão, carícia e mil beijos eternos?
Pé ante pé, entro devagar para não perturbar sua ordem. O sol, curioso e atrevido, lançou-se pelas cortinas entreabertas.

Continuo trêmulo e você decidida. Parece que invertemos os papéis e a novela perdeu parte de seu brilho. Pois hoje interpreto o coadjuvante covarde. Narcisismo meu? Confesso que sim, porém não nego o quanto estou indefeso. Inseguro. Não fique vasculhando cada canto de mim com esses olhos, os mesmos olhos que me prometeram eternidade, os mesmos olhos que, refletidos nos meus, viram uma verdadeira paixão. E gritaram de alegria, choraram de saudade, riram desesperados.

De repente fico tonto. As imagens vão se confundindo, brincando comigo.

Literalmente, pareço estar sem chão. Meu estômago está embrulhado.

“O que você tem? Precisa de alguma coisa?”, pude notar a aflição em sua voz... A preocupação com meu súbito mal estado.

As cores estão dançando, as luzes vão apagando... Eu preciso...

“De você...”

29 abril 2010

Perfil


Aos amantes, que no inverno
Aquecem suas almas,
Eu entrego o meu coração
(ou pelo menos o que restou dele).

Já que meus olhos
Envelhecem cada dia mais,
Meus lábios secam,
Minhas rugas vão se enrugando
E torturando e
Ficando obsoletas.

As lágrimas agora
Caem secas,
A têmpora embranquece,
A maldita morte
Principia pela porta;
Logo aparece.

Meu fim é inevitável.
Afinal, tive meu começo.
É questão de tempo: irei desaparecendo aos poucos,
Sumindo sem querer.

Até que minha voz se cale
E meu silêncio denuncie minha ausência.
Até que minha lembrança
(meramente poeira) misture-se às areias do deserto.

Enfim irei tornar-me uma sombra,
Um passado miserável e indesejado.

Saibam, porém, que no coração
Que lhes devoto há o suave peso
E o fascinante ardor
De meu primeiro amor e de minha última saudade.

Meu Outono


Ontem acordei com a vista embaçada, ofuscada pela imensidão de meu vazio. Minha respiração ofegante denunciava a ansiedade contida em meu peito. Meu coração estava aos saltos, sem querer e querendo ao mesmo tempo. Suas piruetas eram tais que fui obrigado a ceder à tentação: levantei para olhar o horizonte.

Ainda era madrugada. O azul enevoado do céu pressionava o amarelo do sol. A manhã principiava sem demora; sossegada e quieta, ela aparecia em passos lentos e cadenciados.

Notei, displicentemente, que o outono torna a vida mais romântica. E solitária também, como em qualquer estação. Mas, verdade seja dita, o outono é a época das grandes paixões: depois da quentura do verão e as dores de cabeça de começo de ano e antes do frio insensível e pouco acolhedor do inverno. O exato momento em que as folhas envelhecidas caem formando uma chuva de desapego e separação; uma renovação inquieta que começa pelo fim e termina quando menos se espera...

Deixei meu olhar olhando a solicitude das estrelas que iam sumindo e brilhando antes de partir, como um adeus cortês. Pedi para meu tempo tomar conta do tempo que, embora pouco, me restava. Aos meus lábios dediquei à tarefa de beijar um beijo doce na ilusão dos sonhos amargos que tenho tido ultimamente. Fiquei a deriva; um torpor que subia aos meus pés e arranhava minhas costas até atrever-se na escuridão do meu pensamento. Um emaranhado de teorias e reconciliações, qual uma guerra sem fim ou um abraço esquecido.

Ao longe, sua imagem pairava suave. E aproximava-se em desassossego, correndo para meus braços. Queira ou não acreditar, minha cara, mas você gritava extasiada, frenética. Feliz eu, feliz você, havia razão em suportar o peso que suportava e falar o que falava, mesmo que as palavras fossem silenciadas pela magia do instante eterno e fugaz.

E eu ia ao seu encontro, tropeçando nos medos que caíam aos montes no chão. Um chão de terra, grama. Já não estava mais onde estivera. Se era loucura, creia-me, foi uma das melhores.

De repente, os primeiros raios de sol romperam sua figura em milhões de partes e seus olhos fugiram dos meus, junto com sua voz. Você foi sumindo da mesma maneira como foi aparecendo. As nuvens desapareceram. O azul-claro brilhava, a aurora cantava. Mas em mim havia dor. Não me queixo da tristeza em si. Nem da solidão.

Queixo-me de não tê-la como gostaria. Queixo-me de pranto pesado e soluços incansáveis.

Queixo-me de mil e uma coisas infindáveis enquanto houver a maldita covardia dos termos. E, contra eles não há argumentos que possam advogar a meu favor.

Só há uma certeza plena e indiscreta que insiste em ferver meus nervos: se for loucura, deixe ser a mais bela possível. Uma dessas em que o louco declama poesias ao vento e pede conselhos à parede. Até quando durará? Não sei; no momento importa somente a sensação e a atitude, o resto que tome seu próprio partido e busque sentido.

E se sussurrassem que amá-la seria o mesmo que esquecê-la, peço desculpas, mas meu amor é imperfeito e minha saudade é estrangeira, não possui passaporte nem visto e certidão, acho até que ela é indigente. Veio de outros e para os mesmos voltará.

Para que esconder um sofrimento tão bonito? Uma dor intermitente que causa um batuque tão suave. Uma lágrima quente que se finda em pureza, faz crescer esperança e fortalece a alma.

E então, quando finalmente acordei, você não estava ao meu lado. Minha cama estava vazia, os lençóis amassados, os travesseiros esparramados. A janela encontrava-se aberta. Levantei com custo para fechá-la: o frio vinha com a brisa e misturava-se ao seu perfume.

Quando cheguei ao parapeito para espiar a cidade acordando, ouvi um murmúrio indecente, fazendo perguntas sobre minha aparente insanidade.
A elas respondi prontamente, com gosto em cada letra pronunciada:

...é amor...

03 abril 2010

De um Amor Inconstante

Se a distância que separa teus lábios dos meus valesse o fim de minha solidão, talvez sonhar fosse uma tarefa tristemente insana, comparada à possibilidade de tê-la e amá-la.


Pois sim, os meus olhos procurando os seus, em mais profunda agonia, querendo encontrar e abraçar e brilhar no brilho do seu sorriso e no encanto das tuas palavras. E não encontrando nada, chorando pétalas de rosa e soluçando cartas de paixão.


Afinal, eu te amei com a imensidão de um céu no fim da tarde, com a cumplicidade enamorada dos tolos, como a aurora beijando o crepúsculo, os pássaros voando para seus ninhos. Uma criança perdida buscando um abrigo.


Eu te amei. E repetiria a façanha todas as manhãs e noites. Durante a madrugada e nas tardes sufocantes dos verões de janeiro. E se gritassem: “Deixa de ser bobo, essa loucura não te leva a nada!” Eu gritaria em resposta que amor não é loucura, e minha busca não é errante, é incerta, ligeiramente arriscada. Porque no fundo sei que ponho em jogo sua amizade. Sua confiança. Sua ternura. Mas, desistir novamente... Seria covardia.


Por anos meu silêncio acompanhou minha alma trépida, amando-te também, sem dizer verso, sem cantar rima ou estender elogios.


Fui escrevendo nas areias da praia toda a minha angustia. E, quando as ondas do mar, em fúria, apagaram minhas palavras, ainda havia dor em meu peito e apego em minhas mãos.


Não fui capaz de te esquecer. Pensei em morrer, mas a morte seria o fim de meus dias e o começo de novas batalhas, nas quais eu estaria longe do seu perfume doce. Do seu carinho tranquilo. Da sua risada envergonhada. Eu ficaria longe demais de você, e não há suicídio pior que esse.


Se, de uma nuvem nublada um anjo sentenciou: “Sofra as dores do amor”, como recusar tal fardo? Como negar o que sinto, sem dizer quem amo? Sem afligir-me dos pés à cabeça?


Eu sou quem pega os restos de afeição que você dedica para os outros. Eu sou quem vigia o teu sono, enquanto os demais tentam perturbá-la. Eu sou aquele que te espera e teme continuar esperando. Eu sou o sujeito, que escondido nas cortinas desse enorme palco, dedica a própria vida em um total e contraproducente amor. Eu sou quem não deveria ser, mas continuarei sendo, enquanto continuar desejando-a.

O único problema é que seus lábios estão distantes demais dos meus. E com isso...




Minha solidão não tem fim.

30 março 2010

Oração Poética


Quando nasci, um Serafim desses de pompa e poder,
De rosto enrugado, olhos cansados e barba branca,
Empoleirado no alto de seu trono
Gritou, fazendo farfalhar sua túnica azul:
“Anda traste pulguento.
Corre atrás da tua vida porque ela tem pressa
E a morte não espera o final do dia.
Desce logo e faz teu destino, criatura sedentária.
Busca seus sonhos e escreve sua história!”
E eu desci meio sobressaltado e sem jeito.
As ruas, as avenidas, as praças e os prédios.
Tudo isso me fascinou.
Confesso que acho o litoral carioca um verdadeiro espetáculo.
Mas, como bom paulista que sou adoro caminhar no Ibirapuera
E ver o show de luzes durante o Natal.
Acredito cegamente nas dores da saudade.
Tenho minha própria fé e meu Deus não se confunde em religiões.
Mas sempre mando rezar missa para mau-olhado.
Sou poeta quando posso e quando nada me impede.
No mais sou estudante.
E, diga-se, sinto aversão a palavra vestibular.
Sempre cumprindo o que o tal Serafim falou:
Escrevo o meu destino, já que buscá-lo é tarefa dos metafísicos.
A felicidade que me convém provém dos outros,
Sou alegria pura e pouco explorada.
E, quando esse anjo meio atravessado
Gritar-me novamente
Pedindo para subir,
Meu amigo sou honesto em dizer
Que pensarei duas vezes antes de atender ao chamado.
Em nome dos pais, dos filhos e de todos os santos
Amém...

20 março 2010

O Vão da Porta 2


Não sei o que dizer.
Não sei ao certo se há alguma coisa a ser dita. Simplesmente estou perplexa.

Será um fantasma? Afinal, depois de tanto tempo, parece que me esqueci de como você é. Ou, pelo menos de como você era. Eu te amava, sabia disso? Eu tinha planos, tinha desejos, e o mundo não girava somente ao redor de suas vontades! Eu possuía um futuro escrito, acentuado e bem finalizado.

Mas, minha felicidade me deixou, foi embora com você, sem justificativa, sem piedade... Fiquei de mãos vazias, olhos vendados. Fui jogada à própria sorte. Como uma boneca de pano, que não fala, não respira e nem sente. Apenas um objeto.

Agora, você bate em minha porta dizendo: Tudo bem. Invade a minha vida outra vez, arrancando de mim o meu bem mais precioso: a tranqüilidade.

Meu coração vai batendo tal como um violoncelo desafinado.
Estou tentando conter as lágrimas. Cansei de derramá-las por ti. Cansei de ver o céu e procurar nas estrelas uma esperança de brechó. Uma oração milagrosa, uma frase amaldiçoada. Com o passar dos dias fui sentindo um amargo gosto no coração.

Após três meses de sua partida, decidi pegar nossas fotos e montar um álbum de recordações. Passei dois dias inteiros nesse projeto angustiante. Só pude dormir depois de vê-lo e revê-lo pronto. Lembro, como se fosse ontem, que tranquei a porta do meu quarto e minha mãe, do outro lado gritava histérica, que eu estava enlouquecendo. Mal sabia ela que já havia enlouquecido, por sua causa. Afinal, sempre havia sido você, do início ao fim meu sol era você. Minha estrela guia, a alma aventureira que se juntava a minha serenidade...

Sou sincera em dizer que pensei em me matar. Todavia, não pude. Imaginava se você voltaria. E, se voltasse, eu estaria morta... Seria injusto não pedir explicações para sua atitude, certo? Conclui que o céu poderia esperar um pouco mais. Ou talvez o inferno, ou nenhum dos dois. Quem se importa?

Meu mundo foi caindo aos poucos.
Desisti de conversar.
Desisti de sair com os amigos.
Desisti de aceitar ajuda e conselhos.
Desisti de estar aberta à novas experiências.

Só não desisti de vê-lo outra vez. Foi neste instante que notei a minha dependência em seu carinho, e sua ausência ia me ferindo e flagelando.

Resolvi mudar. Fugi de casa no meio da madrugada. Deixei um pequeno bilhete grudado na porta da geladeira. Cortei meu cabelo e fiz mechas avermelhadas. Sai sem destino, com a roupa do corpo, uma pequena bolsa e algumas notas para garantir a sobrevivência.
Comprei um maço de marlboro e coloquei no bolso de trás da calça. Aprendi a fumar sozinha. E também aprendi a parar com o vício, quando minha mãe, em prantos me ligou dizendo que meu avô estava internado, com câncer no pulmão. Não cheguei a vê-lo no hospital, não pude abraçá-lo uma última vez...

Depois de seis meses voltei para casa. Nem eu sei como me virei durante esse tempo todo somente com alguns pares de roupa. Quando deitei na minha cama de novo, chorei, gritei e tive pesadelos.

Amiúde, aquele amor preso no calendário sussurrava em meu ouvido memórias tristes, que abriam enormes rombos em meu peito. Cada anoitecer tirava de mim uma lágrima doída e um pedaço de vida repartido e esmagado.
Certa manhã suturei as feridas e segui meu caminho. Meu avô havia morrido, minha mãe era pura desolação. A casa cheirava a depressão. Lembranças demais, fotos demais, perdas demais. Um completo caos. Mas, foi nesse caos que encontrei minha ordem. Estudei várias semanas o que deveria ter estudado em anos, mas não fiz por estar ao seu lado. Fui recompensada: passei no vestibular. Cursei publicidade. Vi na faculdade um mundo totalmente novo.
Amores novos. Nada duradouro, apenas flertes, sexo e uma despedida digna, sem ressentimentos e promessas de namoro.

Sem o compromisso de estar ao lado de alguém.

Sem o compromisso que nós tínhamos.

Então, não me estenda essas rosas. Eu não mereço rosas roubadas de um jardim qualquer. Muito menos diga que tudo está bem, quando não está. Mas é impossível não reparar...
É incrível: você parece tão diferente, e tão estranhamente igual. Mais maduro, porém, sempre desajeitado. Sério, e também muito brincalhão.
Pare de me olhar. Pare de usar esses artifícios baratos. Já fui pega por eles uma vez. Uma segunda vez seria estupidez.

Mas receio ser uma tremenda estúpida. Será que devo abrir a porta? Por sua culpa estou ficando aflita.
Tudo o que aconteceu comigo é sua culpa. Toda a desolação, toda a loucura, toda a paixão... E eu permiti que isso me atingisse.

“O que quer de mim?” Estou torcendo para que não me responda.
Torcendo para que escancare a porta e entre sem minha permissão. Assim terei motivos para odiá-lo ainda mais.
Contudo, o meu ódio se confunde com meu amor, e aquela tênue linha que os separa deixa de existir.
O que posso fazer? Não há uma resposta de ti. Só esses olhos de cão sem dono.
E eu: choro por dentro e por fora. Afogando-me no passado e rejeitando suas flores. Mas, devo confessar que são lindas. Não acredito no que vou dizer, mas digo antes que morra de frustração.

“Dê-me logo o buquê... E entre.”

19 março 2010

Canção do Exílio

Minha terra tem presídios,
Facções e o P.C.C.,
Os ladrões que lá são presos
Tomam até vinho rosê.

Nosso céu tem mais carbono e gás metano.
Nossas várzeas agora são grandes avenidas.
Nossos bosques tem mais projetos sociais,
Cesta básica, escola para todos e outras iniciativas.

Ao usar cartões de crédito
Minha conta estourou!
Minha terra tem bancários,
Malditos gerentes e o Cristo Redentor.

Minha terra tem políticos
E seus caprichos de direito.
Caixa um, dois, três, quiçá quatro.
E o povo, lá de baixo, grita contrafeito:

“Minha terra é um coliseu
Onde leões atacam cristãos,
E a máfia, rindo no Congresso
Assiste a essa destruição.”

Mas também há o axé dos carnavais,
O funck, o pagode, o pop e o rock.
Minha terra tem o samba no sangue
E nas ruas das cidades, o hip hop.

Minha terra é a sua também.
Portanto grite alto, pule de alegria,
Pois nós tivemos o pan,
E teremos a copa e as Olimpíadas.

Todavia, o que espero mesmo
Gonçalves Dias, é que até lá
Ainda existam palmeiras
Para cantar seu Sabiá.

13 março 2010

Romântico Violinista



Ao som de um violino,
Doce, agudo, grave ou fino.


Com um belo acústico ao fundo:
O sol beijando a vastidão do horizonte.
É fim de tarde na planície.
As cores vão se misturando:
Azul, laranja, amarelo e branco.
Estou sentado na grama,
Esperando por você.
E, enquanto não chega, vou treinando.
Falando sozinho, decorando para não errar.
Mas, confesso que todo o discurso que fiz
Nem de longe expressa o que realmente quero dizer.
Então por que o escrevi?
...Não sei e, no momento não importa.
Você está chegando, devo me preparar.


Ao som de um violino,
Doce, agudo, grave ou fino.


Declaro-me para ti.
E, Meu Deus, se me chamam de poeta, seu riso é melodia.
Tento disfarçar minha ansiedade em vão.
Quanto mais seus olhos olham os meus,
Mais rápido meu coração vai batendo.
Espero não enfartar, sou muito jovem.
Contudo, troquei as palavras,
Tropecei em meus próprios versos.
Por um instante, tive medo da sua reação.
Medo de perdê-la, sem ao menos conquistá-la.
Mas as evidências são claras:
Seu sorriso envergonhado, minha cabeça baixa:
Com certeza isso é amor.
De repente você busca em mim um abraço apertado,
Um colo, um carinho.
E eu te dou o mundo, a imensidão.
Te dou o meu paraíso e
Seguro em sua mão.
Aquela timidez torna-se intimidade,
Uma lágrima, depois outra e mais outra.
E tudo está completo.
Bem discreta, a noite vem chegando.
As estrelas estão nos assistindo.
E também estão sorrindo,
Brilhando “pálidas de espanto” e alegria.
Minha alma respira aliviada,
E o vento da nova madrugada
Traz aquele “eu te amo” dito entre sussurros e soluços
E repetido inúmeras vezes durante nossa caminhada...


Ao som de um violino,
Doce, agudo, grave ou fino...

09 março 2010

O Vão da Porta


Antes de partir... Eu não lhe disse adeus. Estava ansioso demais, sedento de vontade de ir embora.
E simplesmente fui.
Nada. Nenhuma carta, nenhum sinal nem mensagem. Muito menos uma prévia explicação.
Eu... Queria fugir a qualquer preço. E vejo, hoje, que essa foi minha pior decisão.
Afinal, agora, diante de sua porta, com um pequeno buquê de rosas na mão esquerda e, na direita a minha esperança, não encontro palavras para caracterizar minhas atitudes.
Nenhum pedido de desculpa será suficiente.
Nenhuma lágrima minha compensará a sua tristeza, nenhum esclarecimento de minha parte irá ser suficiente para quitar o número de vezes em que você implorou aos céus, pedindo que eu voltasse.
Mas, finalmente voltei.
E não espero ser recebido com carinho, beijos e um abraço apertado.
Ainda é cedo, bem cedo.
O sol está despontando, você, com certeza está dormindo. Porém, terei de acordá-la.
Não quero que você me entenda, pois sei que é uma tarefa impossível de se realizar.
Eu só quero que você me veja, para que eu possa vê-la também, olhar em seus olhos, sorrir ao seu lado (mesmo sorrindo sozinho). Se dissesse que te quero, estaria sendo honesto.
Se dissesse que te amo, estaria compartilhando uma suave verdade do meu coração.
Se dissesse o quanto desejo o seu rosto junto ao meu, lembraria dos meus dias de solidão. Lembraria de nossa paixão colegial, nossas aventuras adolescentes, nossos braços quentes nas noites de inverno.
Mas, se me perguntasse se eu te mereço, obviamente diria que não.
...Pronto, toquei a campainha. Talvez não devesse tê-lo feito. Talvez sua vida esteja melhor sem mim.
Talvez eu perceba o quanto preciso de você e uma dor, amiúde, irá me incomodar, dentro do meu peito...
E, nessa angústia de esperar e não saber o que fazer, querer e temer perdê-la, eu vou desistindo... Vou me afastando. De novo.
As rosas agora estão no chão, minha cabeça baixou, minha mão ficou gélida. Sinto-me fraco. Faltam expressões que descrevam meus sintomas.
Provavelmente é o mal do meu século. Ou o meu mal, ou o meu bem...
Ou o som dos seus passos do outro lado da porta, a chave entrando no buraco da fechadura e a maçaneta girando levemente...
De repente, seu rosto aparece no vão que separa a porta do batente. Você assustada por ter alguém a esperando tão cedo. Eu, aflito em ver sua reação.
Seus olhos se arregalaram por um instante. Agora, uma lágrima silenciosa desce discretamente, delineando sua face. E outras seguem o exemplo da primeira.
Pensei, primeiramente, em me aproximar. Antes, tenho de recolher as rosas.
Acredito que consigo, somente, estendê-las a você.
Exatamente como eu fiz em nosso primeiro encontro. Lógico que nele havia inocência, onde hoje há expectativas e frustrações.
Aliás, havia muitas coisas em nosso primeiro encontro. Havia o mundo e as estrelas, o céu e o mais puro infinito. E, neste momento, há apenas o diálogo de nossos olhares.
Tão tenso. Tão necessário.
E, se não quiser me ver nunca mais, irei entender. Mas não feche a porta ainda, eu preciso te ver só mais um pouquinho, mesmo sabendo que dessa maneira irei me torturar...
Mesmo sabendo que um dia você terá de fechar a porta, com ou sem a minha presença em sua vida...
Porque eu esperei tanto tempo para te encontrar, tantos fatos a contar... Todavia, a única coisa que posso lhe dizer sem tropeçar na própria língua é:
“Tudo bem...”

21 fevereiro 2010

...

No final da guerra, sou eu quem carrega as cicatrizes das batalhas...

13 fevereiro 2010

Incompreensão


Amar é viver o inferno, ver o fogo ardendo e o paraíso, lá longe, cada dia mais distante.

Amar é correr com a certeza de ser o último a atingir a linha de chegada, sem ninguém para aplaudi-lo e ovacioná-lo.

Amar é perder, sem ser ressarcido. E continuar perdendo, enquanto continuar amando.

Amar é trair a si próprio, enganando-se com as verdades que o coração inventa e a mente aquiesce.

Amar é sofrer com o que não se possui, sofrer com que o não se pode silenciar e corroer a alma com os segredos que vão corroendo nossos lábios e amargando nossos olhos.

Amar é uma constante entrega, que só tem fim com o fim da própria vida.

Afinal, amar é chorar no desespero e rir na alegria. Brincar na felicidade e pedir perdão na hora da falha. É confessar seu espírito, mesmo não querendo. É sorrir no sorriso do outro, cantar desafinado, brindar a falência, ver morrer a decência e inibir a boa conduta.

Amar é algo que não se explica. Amar é fogo, e água, e terra e ar também. Amar é tudo, é nada, é saltar de um precipício com ilusões e anseios. É, novamente, ver o paraíso e querer um dia chegar lá.

Amar é uma dor extravagante, uma medalha de honra ao mérito, uma palavra sussurrada no ouvido, um soluço de adeus, uma declaração presa a garganta...

Amar é ser amigo e amante. É estar ao lado e sempre além. É não poder contar a verdade sem temer a reação de quem se ama.

Amar é um grito de socorro, um esconderijo perigoso em que se encontra alguém que compartilhe o seu medo.

Amar é uma frustração contente, uma satisfação incompleta e uma atitude de afeto.

Amar é amar, sem definições ou prolongamentos. É um sentimento que palpita e nunca segue reto.

Amar é ser você em outra pessoa, diferente e indiscreto. É pedir ajuda, pedir conselhos, andar de mãos dadas para não haver separação.

Amar é aprender, é dormir e acordar e entender que nada disso é sonho. É tentar, errar e continuar, sempre iludido, a amar, amando.

08 fevereiro 2010

Singela Dedicação

Quem me dera
A vida fosse ilusão,
Quem me dera
Os sonhos fossem pretensão,
Quem me dera
A existência fosse
Pura gratidão,
Quem me dera
Suas palavras não
Ferissem tanto o meu
Coração...

02 fevereiro 2010

Testemunho Final

Aquele amor, amiúde irá me visitar durante a noite,
Pungente em sua forma mais complexa de amar.

Aquela dor, tão freqüente e viciosa, irá render-se a própria derrota,
Dizendo alto, o quanto me quer bem.

Os meus inimigos amedrontados e feridos, irão chorar,
Em seu último pedido e misericórdia.

Os olhos de quem me vê e me esquece, e depois amanhece
Irão tão cedo me encontrar e reconhecer.

Aos erros que cometi, peço perdão e dou passagem.
Pois, não vou mais carregar esses demônios e incertezas.

De todos que me admiram, só uma pessoa realmente me interessa.
E a ela eu dedico boa parte de minha vida.

Os poetas que me desculpem, pois bem sei que poesia é arte,
Porém minhas palavras assumem agora cadência e rancor.

E aos desconhecidos que me negam e rejeitam, eu compreendo.
Afinal, sou dispensável para boa parte do mundo.

Todavia, outra boa parte me quer bem e reconheço:
A prosperidade de meus acertos precede em muito a minha tola carência.

E, de minha vivência erudita, tiro da ponta de minha língua a minha derradeira declaração:
O meu Muito Obrigado...

30 janeiro 2010

Antes


Já não se fazem mais os pedidos de antes. As fotos agora são diferentes. As palavras perderam aquele sutil amargo que outrora preenchia nossas bocas. Os olhares, que indiscretamente se perdiam e encontravam e partiam sem se despedir, hoje pedem indiferença e ganham ingratidão.

Já não se fazem mais aquelas belas paixões, em que o mocinho salvava a donzela, e o vilão morria de ódio ou catapora. Os desejos, que em outros tempos eram azuis, cor de anil, rubro-negros e uma infinidade de cores, agora se acostumaram a serem neutros, transparentes... Qualquer coisa, menos alegres.

É, parece que a vida ficou mesmo meio sem graça.

Não que eu reclame, afinal, há vezes em que é preciso esquecer o convencional. Mas, venhamos e convenhamos: o convencional era delicioso. Fantástico. Brilhante. E, sem querer, foi entrando no passado, criando raízes na tradição, beirando a insanidade e se alimentando de falsa esperança. Com o tempo, ele se tornou obsoleto e hoje não passa de uma engrenagem velha, feita por velhos e ridicularizada por muitos.

Por isso, ele é tão assombrado. Mal amado.

E, o que me deixa ensandecido: Nem as grandes promessas sobreviveram. No mundo em que vivo, não mais prometemos mil beijos e amor eterno, ou fidelidade e sucesso. Esbarramo-nos e criamos atração. Já não há o compromisso do existencialismo poético.

E a poesia era tão linda!! Tão cheia de vida, de verdade e mentira, tão intensa que chegava a reluzir felicidade. Ela nos fazia bem, nos enchia de vontade, de “querer e bondade” que aos olhos dos mais secos, as lágrimas caiam em gotas leves, e os mais emotivos debruçavam-se em oceanos de sorrisos.

Pois sim, houve uma época em que tudo parecia diferente, todos possuíam face e o malvado sempre era pego em flagrante. O conto de fadas não era proibido, e sonhar cheirava doce como chocolate. Ah, confesso que sinto falta disso: desses tempos áureos em que vivi por poucos anos e aproveitei tardes e noites, e algumas poucas manhãs. De fato, foi lindo ver o que vi, bicho.

Woodstock, repressão, exílio, canções subversivas, os caras pintadas: o suor da guerra por princípios, por crepúsculos tranqüilos e auroras encantadas. A busca por amor, por ideal. Ou o próprio amor ideal, ou a idéia de amor, ou qualquer coisa relacionada. Talvez esteja ficando velho e me lamentando por não ter conquistado aquela garota que tanto quis.

Talvez seja a mudança de gerações, talvez seja a falta de humanidade que se encontra em frases românticas de alguns filmes hollywoodianos. Talvez seja a soma desses meus tiques e manias. Talvez não seja nada.

Somente o passado, mostrando-se impiedoso. Provavelmente é aquele impulso de viver o “antes”. O que já foi, já se tornou recordação...

Só sei de uma coisa...

Hoje, aquele que é pego: escapa, o que é acusado: mente, o que provoca dor: finge, o que pensa: não age, o que fala: morre, o que ama: perde, o que sorri: se esconde, o que grita: se cala, o que rebela: se acalma ...

E o que escreve: espera, incessantemente;

...espera, incansavelmente;

...espera; ansiosamente;

...espera; calorosamente;

...espera, tragicamente...

...que as coisas mudem...

E, quiçá, continuará esperando.

02 janeiro 2010

Válvula de Escape


Pungente.

Dormente.

Insaciável.

Uma dor que corrói e vai rasgando minha racionalidade. Uma dúvida suspensa em uma névoa de memórias impróprias para o momento.

Sinto-me... Confuso. Até que ponto alguém é capaz de inventar e sustentar uma mentira? Por que tal atitude? A verdade dói tanto assim? Ou seria a dor da ilusão que causa o prazer do ato?

É tão difícil notar que as coisas fluem, as pessoas morrem e o que acontece tem, necessariamente, que acontecer?

Ainda estou confuso. E, provavelmente continuarei assim. Simplesmente confuso por mentir demais e sentir o peso da realidade. Afinal, minha mentira foi feita em cima de um mundo de promessas: promessa de não sofrer, de não se magoar, de não matar ou mesmo morrer, de aproveitar. A promessa de pulsar um coração enquanto houvesse fôlego de vida. E essa teoria tão comunista durou um bom tempo. Sei que não foi fácil no começo, mas quando se pega o jeito e acordar todas as manhãs não se torna um árduo inconveniente... Tudo funciona. Como se a invenção fosse a verdade nua e crua.
Como se não pudesse existir outra resposta às minhas perguntas.

Outra solução para os meus problemas.

Porém há um martelo em minha cabeça, que não pára de bater na minha consciência. E ela me disse a pouco que não suportará a pressão por muito mais tempo. Logo, eu irei ceder aos fatos. Logo, aquela ferida tão dolorida irá ficar exposta e será cutucada por curiosos, irá aumentar e... Romper, explodir.

Existir. Logo, a ferida irá existir novamente.

Não sei se estou pronto para tanto. Nem sei ao certo se estou pronto para alguma coisa que não o esquecimento.

Por que todo o drama?

Porque dói.

E eu estou cansado desse espetáculo. É mais fácil admitir, eu sei. Haverá uma avalanche de conseqüências e incertezas, contudo, o pesar terá sumido. Talvez o medo também. Mas eu não posso abrir mão dessa fantasia, dessa idéia tão vívida e pura e... Aconchegante. Por tempos mentir à mim mesmo foi a única solução plausível. E agora, parece uma covardia me esconder atrás de panos e palavras fracassadas.

Parabéns, comecei o ano bem.

Mas, o que fica perturbando o meu bom senso é: até quando vou fingir e mascarar meus sentimentos, meus gestos e minha vida? Até quando vou atuar como bom samaritano? Até quando o medo de estragar as coisas e jogar tudo no ralo vai afugentar minha coragem?

Até quando vou fugir de mim, negando as explicações necessárias, lutando para não me encarar e ver meus olhos de reprovação?

E até quando eu vou aguentar não ver os seus olhos nos meus?

Isso somente o tempo e as mentiras vão poder me responder. Ou talvez as feridas. Mesmo assim...

Eu ainda não sei.