24 novembro 2010

Distante

Feito sopro, partiu voando.
Despido de pudores, sumiu entre nuvens e querubins,
Colecionando olhares curiosos
Dos desatentos seres mortais
Que, esperançosos, pediam socorro.

E recebiam maldade.

Ele, sem nome ou descrição,
Pedia, entre estrelas e constelações,
Um sempre vivo gosto de viver.
Já que vida é uma questão metafísica,
Explicada pelos metafilósofos, que na metalingüística
Encontravam respostas.

Mas ele nunca gostou de metas.
Preferiu, desde criança, as aventuras do invisível.
Poetazinho de nada, sujo de lama,
Via brilho na desgraça mundana das palavras simples.

Dizia-se socialista.

“Aos ricos devemos tirar cifras,
Aos pobres, dar carinho”

E a mim, um pouco mais de amor,
Constantemente amor.
Uma entrega insaciável de paixões carnavalescas.
Com cores e deslumbres diferentes.
No abre-alas, as orgias da paz.
Na bateria, o anseio sorridente.
No grand finale, as sobras de alegria
Despejadas em jarras douradas.

Muito carnaval!
Pouca infidelidade!

Ele foi embora mesmo assim.
E não há quem mude tal fato.
Ele deixou de lado seu ideal.
Tornou-se indigente no caleidoscópico
Existencialismo fútil.

Sua presença foi dita desnecessária.
Portanto, desapareceu sem deixar vestígios.

O anárquico idealista esqueceu-se
De como deveria amar.
Deprimido, largou tinta e pena,
Papel, relógio, calendário e roupa velha.
Colocou seu coração num envelope
Com destinatário.

Mas a entrega não aconteceu.

Na infinidade da censura,
Deparou-se com a hipocrisia dos leigos.
Achou graça disso, brincou.
Mas, por dentro, chorava a insanidade
Dos loucos bêbados.

Bêbados trépidos e...
...Circenses.

A última criatura que o viu
Foi a Lua.
Contam que seu rosto estava vermelho,
Seus olhos inchados.
Lágrimas escorriam por entre as bordas
De solicitude que sobressaiam de seu sorriso
Infeliz.

Talvez paixão.
Talvez fim.

E ela lhe disse, do alto de sua prateada
Sabedoria milenar, com todas as palavras:

“Vá com Deus...”

25 setembro 2010

Do Tempo Dela


Contava romances cinematográficos.
Chorava sem querer, por motivo algum.
Brincava de amor, amar, fingir e ser. Mas só brincava.
Ria, ela ria coitada. Mas os outros não riam junto.

Seus átimos de alegria e tristeza, seus picos de aspereza e lonjura.

Seus instantes.
Íntimos demais.
Doces demais.

Se cantava, o fazia por distração.
Se chovia, corria para a rua. Gritava por gritar e viver.

Estava cansada.
Estava sozinha e desolada e ambígua.

Prendia os cabelos e soltava-os.
Enrolava-os nas mechas de paixão que pendiam de seu sorriso.
Sonhava de vontade, de prazer.

Era a beleza inconsolável.
A fineza justa e bem-medida.
Sua Majestade vivia de infinito.

Infinito sempre, sempre até morrer.
Talvez princesa.
Amante, amada.

Enclausurada nas nervuras da incompreensão.
Sim, enviuvada de namorados de ilusão.

Completa noiva sem altar.

Criança, menina, mulher.

Única.

27 julho 2010

A Angústia de um Anjo

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
Afinal, que vale um peito inerte diante da saudade?
A morte da ternura, frente à angústia da incerteza?
De que vale a explosão de um “sim”, comparada
Ao mais sombrio “não”?
Infelizmente, sem seu sorriso, o teatro perde a arte,
O circo deixa de ser engraçado e o palhaço fica triste.
Sem a sua presença, o anjo perde as asas...
E caí do Paraíso.

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
E o amor fará sentido.
Minha idolatria será recompensada, e a solidão:
Meu fim e meu começo virão me buscar de braços abertos.
Então, ofegante, recusarei o esquecimento,
Com medo de ser esquecido por mim mesmo e por você também.
Galgando devagar, subirei sua escada em silêncio.
Espreitando seu sono na madrugada aveludada.
Olhando seus olhos, sem que tu olhes os meus.

Mas, quando faltar-me, de todo, o ar,
E minha voz cair na solicitude de seu desespero,
Meu coração ficará inchado por dizer adeus.
Irá buscar forças na filosofia do riso, nas zombarias do humor.
Lágrimas cairão sem que eu queira.
A magia do perdão estará presente e bem comportada.
Ficarei, aos poucos, vago, quieto.
Rezarei uma última vez, confessando pecados de homem humano e imperfeito.
E logo, minha ausência será memória...

E você... Continuará sendo a intermitente paixão de meus suspiros.

21 julho 2010

Ahnn...

"...Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só..."


...mas eu continuo só.

E sem luz na minha escuridão. Não é verdade?

16 julho 2010

O Vão da Porta 4


Turbulento... Foi tudo desmedidamente turbulento para mim. Não sei ao certo em que momento, mas agarrei-me ao seu corpo inerte na tentativa de acordá-lo. Meus braços envolviam todo o seu peito e suas costas, sua cabeça pendia, suas mãos abriam-se completamente impotentes. Lá estava eu, segurando aquele que me fez rir e chorar por tanto tempo. Lá estava eu, pranteando um sujeito inconsciente, com a tola esperança de que minhas lágrimas tardias ressuscitassem o estranho que invadia o tão conhecido aconchego da minha introspecção. Não soube o que fazer, além de chorar, claro. E também não sei explicar o motivo de tal atitude, já que ele deveria ser para mim um sinônimo de repulsa. Sei apenas que os minutos escorriam no relógio da cozinha, com aquele tique-taque insuportável...
O amarelo que entrava pelas cortinas entreabertas indicava uma manhã fria, diferente das demais. Meu coração indicava reações diferentes das demais. Meus olhos evidenciavam tal fato.
E, novamente digo: tudo que fiz foi esperar um maldito milagre. Ou um sinal de que ele não voltaria a me olhar com o tão inflamado jeito de apaixonado arrependido. Em português claro: esperava vê-lo morto, quem sabe assim eu não me colocasse em posição de risco outra vez, não me humilhasse diante de um mero sentimento. Se ele morresse, sem dúvida, eu sentiria dor... Uma dor jamais experimentada por mim ou por qualquer maldito poeta, escritor, filósofo.

Porém, seus olhos abriram após dois ou três minutos. Dois ou três longos, aflitos e nostálgicos minutos de reflexão.

Silenciosamente, seus olhos foram abrindo pouco a pouco, mostrando o clarear da vida. E é justamente essa à hora na qual me encontro.
Minhas pernas estão dormentes, meu rosto está inchado, meus lábios úmidos pelas tantas lágrimas que continuam brotando sem que eu me esforce ou queira. Meus pensamentos disparam feito tiros no meio da escuridão. A mais profunda escuridão que já enfrentei. Uma obscuridade permeada de arcanjos caídos, corrompidos pelo medo de sentirem-se mais e mais humanos... Ou, o meu medo de ceder novamente às tentações.
“Oi...” Suas palavras saíram inesperadas, fragmentando meu raciocínio obtuso.
“Não diga nada agora, por favor.” Meu pedido foi sincero, visto que eu precisava esclarecer alguns pontos, antes que ele se levantasse e caminhasse pela minha sala. “Eu queria... Dizer algo que está preso na minha garganta. Preciso desabafar, porque é impossível continuar dessa maneira tão insuportável. Não posso olhar para você sem lembrar do que houve, quando éramos jovens. E, de repente te vejo na minha porta, esperando um convite de boas-vindas com o meu melhor sorriso de surpresa. Maldita surpresa! Meu universo ficou em choque, eu fiquei em choque!” Preciso fazer uma pausa de vez quando, escolher as melhores palavras e organizar as idéias para não perder a compostura (porém, é impraticável não transparecer a minha fraqueza, pois ele me deixou fraca).
“Se tivesse que fazer um apanhado geral, recapitular os últimos episódios de minha vida e dizer o motivo exato pelo qual os vivi, precisamente neste instante diria que foi tudo por você. Cada agonia enfrentada, cada palavra de solidão, a própria solidão, enfim, todas essas desventuras foi você quem causou, querendo ou não.”

Mais uma pausa dramática. Não sei quais termos usar.

“Quando menina, meu único sonho era encontrar o famoso príncipe encantado das fábulas. Na realidade, eu esperava que pudesse viver em uma constante fábula. Não tive tempo de conhecer meu pai. Meu avô sempre teve uma saúde frágil e minha mãe, bom... Você sabe tão bem quanto eu que ela vivia à custa de sua ilusão. Mas minha infância foi boa. E minha adolescência foi melhor ainda, principalmente depois que te conheci. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que nos vimos: estávamos em lados opostos do corredor, andando cada um com seus materiais e suas preocupações. Esbarramos-nos e eu te olhei de um jeito feio. E voltamos a nos esbarrar mais umas três ou quatro vezes (em uma delas eu tropecei, você quis me ajudar, mas recusei por orgulho...). Conversamos, como duas pessoas normais (como se adolescentes pudessem ser normais) na festa de quinze anos da minha amiga, que te convidou somente para nos conhecermos bem...” estou rindo, confusa e melancólica. Ele parece estar recordando esses dias dourados. Acredito que assim funcione uma iminente recusa: você diz que precisa despejar as tais verdades abruptas, começa com o passado mais que perfeito em que ambos vivam paixão, imprudência, aventura e romance. A pós-memória, porém, é outra história.

História essa pertencente ao particular dos casais... E o meu particular determina que eu continue falando de dias nos quais nos amávamos e rolávamos na grama sem as atribulações existentes hoje. Sem as despedidas que não foram dadas... As partidas repentinas...
“Escuta, por...”
“Não, não fale nada, por favor, deixe-me terminar, antes que isso me consuma, antes que eu não consiga respirar sem olhar o nosso caso mal terminado. Afinal...” Não chore, não chore, agüente mais um pouco, falta muito pouco...

Caí em fraqueza, sucumbi diante de minhas próprias desculpas.
Chorei.
Por um átimo de segundos, me arrependi de todos os erros cometidos.
Entretanto, logo essa sensação viajou para além de minha compreensão. E sumiu...

Ele se levantou ainda meio zonzo. Não pude e nem quis ajudá-lo. O que senti foi mais forte, arrebatador, eu diria. E continuo sentindo. Falar com lágrimas quentes rolando de seus olhos, passando pelo nariz, escorregando e invadindo cada canto do seu corpo como um intrometido que vigia, vasculha e sente prazer em vê-la sofrer piora em muito as condições de quem pretende argumentar...
Ou seja, não estava em condições de dialogar. Ainda não estou. Descrições são de bom tom, não é? Pois bem, mesmo com a visão embaçada, vejo-o sentado no sofá que fica exatamente ao meu lado: está com a cabeça baixa outra vez, provavelmente pensado no que eu estou pensado, tentando processar todos os fatos, todas as recordações e, esforçando-se para não chorar junto comigo.
Sim: essa situação toda pode parecer um extenso monólogo, mas as condições, as palavras, a paixão por trás da paixão. Tudo isso me motiva a continuar projetando um falso amor, uma esperança frágil, sensível como eu, doce da mesma maneira como eu era doce antes de me encontrar na solidão.

Está na hora de retomar o controle. Está na hora de finalizar.
“Eu te amo, é tudo o que posso dizer em relação ao nosso caso. É tudo que me resta, sairei ferida em mais uma ocasião e, por mais esforços que façamos, nosso conto de fadas chegou ao fim. Chegou ao fim exatamente quando você evaporou da minha vida, criando pústulas em um canto muito espaçoso do meu coração.”
Mais uma droga de pausa dramática em que pensei se deveria ou não falar. Eu falo.
“Sabe, por muito tempo me questionei: por que fugi de casa? Por que abandonei os caprichos que tinha? Por que você não me levou junto contigo na sua tão gloriosa empreitada? Por que me torturei tanto tempo sentindo essa saudade latente no peito? Mas, felizmente encontrei resposta: Eu nunca quis me separar de você. Nunca quis encarar uma realidade em que nosso relacionamento, do dia para a noite, não existisse mais. Vi por vezes o nosso primeiro encontro “oficial”, por assim dizer, quando combinamos de matar aula de química e nos encontramos na escadaria da escola, aquela que dava acesso ao refeitório. Ninguém nos incomodou naquela tarde, pois só existiam nosso ardor e o singelo amontoado de rosas roubadas por ti e oferecidas a mim, o qual chamei carinhosamente de buquê. E, interiormente eu agradecia a minha amiga por ter te convidado para a festa dela, sem ao menos conhecê-lo direito, com o único intuito de me ajudar, ou nos ajudar. Nós duas conversamos até hoje, sabia? O mais irônico é que ela é casada, tem um filho e está grávida de seis meses também. E esse eu esperava que fosse o nosso final... Ficar contigo para o resto dos meus dias parecia ser um compromisso simples. No casamento dela, eu fui madrinha e não parei, um só instante, de chorar. Não chorei por ela, chorei por mim. egoísta, não é mesmo? Tudo porque eu acreditei em promessas de adolescentes bobos.”

“Não diga isso”, ele sussurrou ao pé do meu ouvido, enquanto eu, sentada no chão na mesma posição há horas, contava minhas amarguras a um sujeito que não me é mais familiar. Olhei para frente tentando digerir a última frase. Impraticável. Impossível.

Injusto comigo e com meus sentimentos.
Por Deus, em qual hora estamos? Quanto mais demorarei a chegar aonde quero? Se é que quero chegar a algum lugar.

“Na realidade, nunca quis desaparecer da vista da minha mãe, nem abandonar meu avô, minha casa, meu quarto, minha cama... Eu gostava daquele espaço e havia aprendido a conviver com as pessoas que o habitavam. Mas queria te encontrar. Queria me encontrar. Como uma garota rebelde foge de casa e deixa o celular ligado para atender quando lhe for conveniente? Simples: Ela não o faz, esquece celular, telefone, qualquer meio de mostrar as caras. Portanto eu não fugi. Apenas dei um descanso a mim. E, me tornei extremamente egoísta, me tornei uma criatura insensível.”

“Você não parece tão insensível assim. Continua a mesma...”. Não podia suportar comentários desse tipo, vindos dele. Ou de qualquer outra pessoa. Rejeitei esses murmúrios, tentei afastá-los ao máximo. Tentei...

“Sempre que escutava nossa música tocando nas rádios, eu parava, onde estivesse, como se aquela música fosse o meu hino, um símbolo de paz, um lugar aconchegante, onde as lembranças eram ternas, como em um trailer de filme americano. E todos os nossos melhores momentos voavam na minha memória. A memória da garota estúpida. Da sonhadora infeliz. Da imbecil que... da imbecil que acreditou nas suas promessas!!!!!!!”

“Não, isso não é verdade, eu sou o culpado...”

“Nós dois somos culpados, e agora pensamos em cometer o mesmo crime de novo? Que tipo de criminosos nós somos? Não possuímos a capacidade de admitir sermos péssimos no que fazemos?”

“Deveríamos experimentar uma segunda chance...”

“Não dará certo, isso te garanto. Ficaremos presos, enjaulados nessa insanidade...”, dessa verdade ele não poderia escapar.

“Cause it's you and me and all of the people
With Nothing to do, nothing to lose
And it's you and me and all of the people and
I don't know why I can't keep my eyes off of you”.


Ele cantou o refrão da música. Ele ainda se lembra. Está na hora de encarar meu problema de frente. De olhá-lo nos olhos. Os malditos olhos que sempre pedem perdão.

“Quer cantar mais uma vez?”, pergunta tola, é claro que quero.

Passar o resto da manhã cantando a música que embalou meus sonhos de jovem apaixonada sem dúvidas é um capricho diferente. Triste, doloroso, mas necessário. Por um instante pude ver a praça onde costumávamos fazer esse tipo de coisa. Vi as crianças correndo atrás de cachorros, os senhores de idade jogando damas. E outros casais apaixonados.

Porém, não tão apaixonados quanto nós dois.

O frio crescia conforme o tempo passava. O sol ficava mais forte. Lá fora, o dia passava depressa ou devagar demais. Sinceramente não reparei nesses detalhes.

Nós dormimos no sofá por três ou quatro horas, acredito.
Foi bom. Todavia, é preciso terminar.

Dizem que, ao entardecer os mais íntimos desejos ganham ânimo, fôlego de vida. Os meus, porém, iam morrendo em uma quietude sepulcral.


“Eu nunca quis te abandonar. Muito menos deixar de amar você. Apenas fui fraco...”, eu sabia disso, ou pelo menos suspeitava.
Queria crer que fosse verdade.

“Eu nunca deixei de amar você, mesmo que pareça masoquista, insano ou clichê. O que significa que eu te amo. Ainda.”

E isso deve acabar. De maneira indolor. Bom, seria ideal assim, mas a realidade nem sempre é essa.

“Já está na hora?”, sua pergunta aliviou um peso das minhas costas, como sempre acontecia quando ele via que eu não suportaria dizer algo.


“Sim... Já está na hora.”

“Um último beijo de adeus?”

Será que devo? Será que isso me fará bem?Tantas perguntas e nenhuma atitude...

O fim de tarde não ajudava a diminuir a pressão sentida contra meu peito.
Talvez fosse amor, talvez fosse ódio, ou um misto dos dois.

O tempo passou depressa para mim, para ele, para nós dois e para ninguém mais. Eu derramei minha última lágrima por ele.

Acredito que isso basta.

“Me desculpe, mas não posso...”

“Nós nos veremos?”

Uma questão peculiar. Somente o destino tem poderes para responder.
Meus argumentos acabaram. Minhas táticas também.

O melhor a fazer é abrir a porta. Esperar que ele vá embora. Desejar boa sorte e até mais ver.

Pronto, a porta está aberta novamente, porém desta vez eu a abri para que ele saía de mim, do meu coração, da minha história.
Do meu passado não, afinal ele foi lindo demais para ser esquecido.

“Cuidado para não desmaiar outra vez, sim?”
“Claro, claro...”, ele cambaleou até a porta... Que fosse charme, chantagem, não funcionaria comigo. Não mais. A partir do instante em que ele atravessou minha porta e saiu da minha intimidade, eu não o ajudaria por um período indescritível.

E saiu. De uma vez por todas.
Para sempre enquanto o sempre existir.
Para o bem dele, e principalmente, para meu bem. Para a minha sanidade. O que restou dela.

Antes de sumir de vista, ele olhou para trás uma última vez e, movendo os lábios sem pronunciar som algum, disse: “Eu te amo!”

Assisti a essa cena, querendo não pensar nem sentir... Peguei algumas pétalas do buquê, que ficaram caídas na soleira.
Coloquei o buquê em um vaso...
Lavei o rosto...
Escancarei as cortinas para observar, atenta, a noite taciturna, despertando-se ligeiramente em um azul infinito, pincelado de estrelas prateadas e vibrantes, com alguns mistérios cá e lá, escondidos.

...E finalmente fechei minha porta.

07 junho 2010

Um leitor, uma pintora e um sonho de alegria


... Era uma vez um homem. Era uma vez uma criança. Era uma vez um sonho... O homem pegou um livro, a criança pegou um lápis, o sonho continuou na memória...

***

“Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios”

***

... Os dias foram passando, as pessoas melhorando, o mundo havia voltado a girar. O sol agora sorria, as rosas já não mais murchavam, os olhares desmentiam a indiferença... Tudo fazia sentido. O próprio sentido tinha sentido. Mas o luto persistia, o homem só fazia chorar. Abandonar o seu equilíbrio, capa de cortesia, decência intimada, palavra errada?

...Seria a loucura, a beira do precipício, o grande aviso, a derrota dos inabaláveis? Mas, e o sonho, onde fica nisso tudo? A criança ainda existe? Calma, meu amigo, pra tudo há seu tempo. A beleza da poesia está na magia com que as palavras são colocadas, decoradas com sucesso, bem acentuadas, quase perfeitas, quase... Eu não sou fã de poesia.

E, tocando dessa maneira nossa prosa, a criança tocava sua arte, gostava de pintar (apesar de não saber diferenciar as cores), achava graça do azul, preferia o vermelho (apenas um borrão mais intenso). Nada lhe afetava, nem mesmo a própria inabilidade. O outono começara. As folhas desprendiam-se das árvores, ganhavam o chão, terra firme, segura. O vento açoitava as noites, a depressão arrebatava aquele ser, o luto, a profundidade do abismo, o sarcasmo, o cinismo, a falta de hinduísmo... Ele tentaria a felicidade, se conseguisse alcançar a margem dessa praia...

***

“Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador”

***

Sonho? Que sonho é esse? Que esperança ainda resta, além da ida até a ponte, o sol, o crepúsculo, o horizonte? Bom, pelo menos o sonho não está mais na memória... Agora ele é potência, carência de alguém... Mas, ele tinha planos, gostaria de idealizá-los, transformá-los em uma entidade suprema, reluzente, um sol, uma saída, uma nova vida...

***

“Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos”

***

Quando menos se esperava, a criança falou: “Papai, vem cá ver o que eu fiz... Vem papai, por favor...”, antes que as lágrimas começassem a rolar de seus olhos e delinear suas rugas, o homem, sem vontade ou vivência, abriu caminho em meio aos seus desesperos, para poder socorrer quem sentia maior necessidade... E, ele disse: “Diga, minha filha, o que você fez?”, e a criança, uma garotinha, no máximo seis anos, doce, ternura em pele clara, doçura em tamanho de boneca, alegria móvel, motivação espontânea, brilho sincero: “Eu desenhei papai, eu desenhei você, eu desenhei a mamãe, a nossa casa... Mas eu não consigo desenhar o Mike... desenha pra mim, papai? Por favor!”, “Claro, eu desenho seu cachorrinho pra você, se isso te deixar feliz...”, e, ele derreteu-se em um breve momento de ternura... “Mas, papai, isso vai te deixar feliz também...?”, ele não pôde conter uma gotícula, transparente, minúscula, carregada de dor, carregada de passado...

E respondeu: “Vai sim, minha filha, claro que vai...”.

As horas poderiam se passar, as páginas do calendário poderiam até voar, eles continuavam seu ofício, sua distração... Se o mundo acabasse naquele instante, eles morreriam felizes... Pai e filha, um ajudando o outro a aliviar o peso da perda, o amargo gosto da intemperança... Traição do destino, família incompleta, o insuperável desejo de pular por uma janela aberta...

Mas, sempre há um sorriso pra se difundir, uma pessoa a se alegrar, um monte de gente pra acalmar, uma historia pra contar...

***

“Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz”
Charles Chaplin

***

E, sem muito a desmentir, mentir, iludir uma platéia, ferir uma idéia... Era uma vez um homem que não pretendia continuar lendo, ele tentaria viver, apenas vivendo. Uma criancinha que ia pedir a ajuda de seu pai quantas vezes fossem necessárias, com isso, tornar-se-ia uma ótima pintora... E, um sonho, o sonho... Bom, esse deveria luzir, oprimir e devanear, esse era seu papel, contudo, ele havia se tornado real... Uma concretização, iluminação, as portas de um mundo inaugural...

23 maio 2010

O Vão da Porta 3



Ligeiramente trêmulo, estendi o arranjo de rosas.

Nesse instante meu corpo todo se rendeu a um frenesi, um estado caótico em que minha cabeça parecia girar incontrolavelmente.

Uma deliciosa sensação de bem-estar invadiu minha alma. Quero falar. Será que devo? Não... Ainda não. Enquanto abria lentamente a porta, fui colocando meus pensamentos no lugar, ajeitando a bagunça, ou pelo menos parte dela. A minha bagunça, a minha insana ganância por aventura. Afinal, estragar esse momento tão único seria um tiro no próprio pé.

E o que menos quero é sair ferido.

Mas os princípios de falha desapareceram, agora que você tocou em minha mão e aceitou, mesmo que relutante, a minha primeira prova de arrependimento.
O nosso recomeço.

“E então, quer me dizer alguma coisa?”, seus olhos continuam os mesmos e suas palavras, tentando disfarçar, transpareciam uma ponta de carinho.

“Várias coisas... Você quer escutar agora?”. O medo de me explicar, sem saber quais argumentos usar contigo, gelou-me. Todavia, sua cabeça girou de um lado a outro, negando o desejo de escutar meias verdades. Com a porta completamente aberta, esperando minha entrada, pude ver o interior de seu refúgio; um ambiente somente seu; perfumado, limpo, aconchegante, discreto...

Desculpe, mas vou invadi-lo novamente.

Vou ingressar nessa última aventura antes de dizer que te amo. Uma aventura que vivi anos atrás e não consegui esquecer. Talvez porque tenha sido muito bom. Talvez porque eu tenha gostado demais de você.

E... Ainda gosto? Ainda espero de ti compreensão, carícia e mil beijos eternos?
Pé ante pé, entro devagar para não perturbar sua ordem. O sol, curioso e atrevido, lançou-se pelas cortinas entreabertas.

Continuo trêmulo e você decidida. Parece que invertemos os papéis e a novela perdeu parte de seu brilho. Pois hoje interpreto o coadjuvante covarde. Narcisismo meu? Confesso que sim, porém não nego o quanto estou indefeso. Inseguro. Não fique vasculhando cada canto de mim com esses olhos, os mesmos olhos que me prometeram eternidade, os mesmos olhos que, refletidos nos meus, viram uma verdadeira paixão. E gritaram de alegria, choraram de saudade, riram desesperados.

De repente fico tonto. As imagens vão se confundindo, brincando comigo.

Literalmente, pareço estar sem chão. Meu estômago está embrulhado.

“O que você tem? Precisa de alguma coisa?”, pude notar a aflição em sua voz... A preocupação com meu súbito mal estado.

As cores estão dançando, as luzes vão apagando... Eu preciso...

“De você...”