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25 abril 2011

Notas Sobre a Perfeição

…Se você não é perfeito, aprenda... Se você se acha perfeito, perceba que existem pessoas melhores...

I see trees of green, red roses too.
I see them bloom for me and you.
And I say to myself what a wonderful world

***

“Hoje eu preciso lhe contar um segredo... Algo que faz parte de mim, mas não me pertence por direito, e sim por ganância...

Algo tão profundo e precioso, que, mesmo com o passar dos dias no calendário, nunca perderei, destruirei ou deixarei de amar... Esse segredo deveria ser seu, e com ele, toda a sorte de pedidos e negações, de lágrimas e sorrisos...

Não sei por onde começar... Nem o começo me basta como desculpa... As palavras escapam das vírgulas e acabo por tropeçar nos pontos finais... Perdoe-me... Essa é a única coisa que lhe peço, antes de viajar pela narrativa dos fatos...

Nunca almejei sequer uma moeda de cinco centavos, não faz bem pra alma sentir inveja, não faz bem pra mente devorar, com os olhos, o que não lhe pertence... Mas, eu caí na tentação... Deixei os anéis escorregarem de meus dedos, perdi o controle, fui longe demais e, ultrapassei a linha do bom senso.

Invadi seu espaço, furtei sua tranqüilidade... E agora...

...eu sou perfeito...

Não negarei que sou perfeito, que criei um mundo onde a lei remanescente é a perfeição. O que posso dizer? Sou obcecado por isso, essa é uma das minhas grandes qualidades.

Contudo, sempre há culpados...

...E você é um deles... Sempre me esnobando com seus superdotes e as suas supermaneiras de viver feliz e rico, e saudável, e limpo... E perfeito...

Droga, mesmo quando criancinha, eu me sentia ridicularizado pelo seu jeito What A Wonderful World de viver... Não pude superar o trauma, meu sangue todo fervia por essa idéia tão presente em seus olhos... E, resolvi, sem mais nem menos, roubar essa tal perfeição... Devo admitir que gostei muita dela... E hoje sou um dependente, um viciado, tal como os viciados em maconha, heroína...

“... Sou vidrado por tudo perfeito...”

***

I see skies of blue and clouds of white.
The bright sunny days, the dark sacred nights,
and I say to myself what a wonderful world.


***

Numa cidadezinha, no interior de um distrito, as pessoas eram alegres. Sorriam muito, acenavam a cabeça, cumprimentavam uns aos outros, lembravam-se dos nomes de todos, caminhavam de maneira impecável...

Era lindo, um mundo sem desconfiança, sem brigas, sem poluição sonora ou visual... As garçonetes, dos restaurantes, sabiam exatamente o que cada um pediria. Os banqueiros tinham uma noção, exata, da quantia que o cliente iria sacar, no banco. Os farmacêuticos tinham a dose necessária de qualquer remédio...

As mulheres eram ótimas donas de casa. Os homens, ótimos provedores. Os filhos, adoráveis criaturas, que não respondiam aos pais...

Os cachorros só latiam se houvesse ladrão, mas não havia roubos lá...

Os policiais eram incorruptíveis, o prefeito era gentil, o pároco muito honesto, os fanáticos religiosos sempre muito ponderados...

As estações eram muito lindas: a primavera com seu ar de harmonia, o verão esbanjando vida, no outono as folhas secas ganhavam brilho, magia e, no inverno o céu azulado e frio resplandecia... Não havia um só dia em que as intempéries da natureza deixassem o mistério de sua plenitude...

-Oi, prefeito Timóteo!

-Boa tarde, madame Joana. Como vai o Ricardo?

-Muito bem, obrigada! E sua esposa?

Todos assumiram um método voyeur neoclássico, menos ultrapassado, mais distante... Pois, apesar das perfeições, as pessoas ainda se diferenciavam pelo olhar vazio, o rosto apático, uma fachada mal feita de uma ilusão temporária...


***

The colors of the rainbow are so pretty in the sky.
Are also on the faces of people walking by.
I see friends shaking hands sayin' "how do you do?”
They're really saying "I love you".


***

“Eu nunca quis te machucar, essa nunca foi minha intenção... Se o magoei quando pequeno, por favor, me perdoe também Essa historia de perfeição, de esnobar e... Isso não existiu, eu e somente eu, sei quantas vezes falhei ao tentar lhe impressionar, ao tentar me impressionar...

Sou antítese da calma, o contraponto da esperança, a desilusão da vitória, sou um verdadeiro fracasso... E agora, mais do que nunca, me sinto um lixo... “Foi uma troca injusta, errada, porque eu causei esse problema, que agora é seu também.”

“Não se culpe, eu aceitei toda a situação muito bem! E sim, foi uma troca justa... Você me deu sua perfeição e, eu te dei minha sanidade... Onde está o erro? Rio só de pensar que... Que...

É hilário, cômico. Fantástico. Insensato...

Perfeito!”

***

Apesar da falsidade vivida pelos moradores da cidade pequena, nada nem ninguém poderiam perturbar a ordem vigente... Até que um dia, apareceu um sujeito mal vestido, mal encarado, mal olhado...

Daí em diante, foi desencadeado um efeito dominó. A população, em estado de catástrofe, começou a tomar providências... Não havia uma só pessoa que discordasse das ordens do prefeitinho quanto ao tema: cuidado com o forasteiro...

...Uma bela noite, quando todos pensavam em recostar suas cabecinhas no travesseiro e dormir, sonhar... Um barulho sobressaltou uma vizinha já velhinha, coitadinha, toda cheinha de rugas, com fofocas na ponta da língua...

...E nesse instante ela surtou... Pegou seu pequeno revólver prateado, carregou-o e, sem pensar duas vezes, saiu noite afora...

-Quem está aí?- disse com sua voz rouca... A voz também parecia ser enrugada...

...Silêncio...

-Quem está aí? Responda!- a essa altura, alguns vizinhos haviam acordado... - Se voc... Ahahahahhaahahahah- ela foi surpreendida por um vulto alto e maltrapilho...

PLIM, PLIM, PLIM...

Três tiros.

Um alvo.

Uma morte.

Um escândalo...

O prefeito chegou o mais rápido que pôde, afinal, ele era gordinho e baixinho, portanto, ele não era atlético...

-Tudo bem, tudo bem... O pior já passou agora ele não nos oferece risco nenhum...

E, naquele vilarejo sem dono e sem endereço, as pessoas sentiram o significado de perfeição, uma coisa que, sem dúvida, não os cabia, nem os rotulava... Era mais uma palavra, mais um vocábulo retorcido e gasto...

E, o prefeito ficou a consolar a velhinha, os senhores, despertos, davam um jeito no cadáver indesejado, as outras donas de casa faziam uma roda em volta da boa samaritana e de seu consolo gorducho, as crianças choravam. Logo, a vida voltaria às ordens de sempre...

...Realmente, o pior havia passado...


***

I see babies cry,I watch them grow,
they'll learn much more than I'll ever know.
And I think to myself what a wonderful world.


***

“Acho melhor você descansar...”

“Não, eu quero estar acordado quando acontecer... Quero sentir na pele...”

“Certeza que é isso que você deseja?”

“Certeza absoluta... É isso que eu mais quero... No momento... Afinal, vai ser apenas um choquinho, não é?”

“Não, vai ser uma injeção na veia... Talvez você sinta uma picadinha, nada além... Por quê? Algo lhe assusta?”

“Não. Na realidade assusta sim… Sim... E se... Apenas se... Eu não for perfeito?”

***

Yes I think to myself what a wonderful world.
And I think to myself what a wonderful world

31 janeiro 2011

Por Pura Arrogância

“Preciso dizer uma coisa”

“Diga”, disse ela, sentada na grama enquanto ele, de pé, encarava os próprios pés.

“Eu te amo”

“Eu também te amo, você sabe disso”, ela estava visivelmente espantada com a declaração, óbvio que ele a amava... “Você é meu confidente, meu conselheiro, meu ponto de equilíbrio...”

E, com os olhos pesados, as mãos trêmulas e a saliva amargando em sua boca, ele disse “E, infelizmente, somente seu amigo”
A boca dela se abriu ligeiramente, o pensamento vagou por instantes que duraram horas. Nenhuma palavra, talvez uma risadinha triste. Melhor não. O que diabos ela acabara de escutar? É possível que isso tenha sido dito? Ai, não, não, por Deus, não...

“Sim”, ele captara seu olhar quase desesperado, sem ao menos saber que palavras viriam. Na realidade ele sabia. Esse era o problema, ele sabia exatamente tudo o que ela faria. Só não admitia saber o final dessa história.

“Eu não... O que você quer que eu faça? Eu...”

“Eu sei o que você vai fazer, apenas quis desabafar”, sua barba a fazer dava-lhe um ar de cansaço.

“Nós... Realmente, nós somos apenas amigos. Apenas.” Ela sussurrou as sílabas, tentando, com cuidado, não machucá-lo.

Ele girou nos calcanhares e foi embora, sem mais explicações ou despedidas.
E então, eles nunca mais se viram.

Ela tornou-se médica, casou-se, teve dois filhos e depois descobriu que o marido a traía com a estagiária de seu escritório. Mas manteve o casamento, sem nunca esquecer aquela declaração feita no final de uma tarde quente de fevereiro.

Ele... Bem, ele tornou-se um suicida em potencial, divorciado, rico, sócio majoritário de um conglomerado empresarial onde, por acaso, o marido dela trabalhava como subordinado em um escritório local.

Ele sabia do caso do marido também. Ele até conhecia a estagiária.

Ele ria por fora, sorria dessa situação toda e imaginava o que teria acontecido a ele se ela tivesse dito “eu te amo”.

Mas por dentro...
Por dentro era só dor.

Sempre.

29 dezembro 2010

Uma carta sincera

O tempo rompia-se em raios amarelos de sol. Era manhã e eu estava exausto, após tanto pensar em você, minha pequena. Desde cedo, muito cedo, na realidade, mais cedo do que gostaria de admitir, venho sendo tragado por essa sua poesia irreversível.

É lindo, minha pequena, simplesmente lindo. Só de pensar em querê-la e tê-la pelo menos uma vez, com sorte, duas, fico extasiado. Talvez um dia você entenda as palavras tontas que escrevo aqui, de maneira tão tonta. Seria desleal descrever o que sinto, porém, uma infidelidade tremenda se não externasse tais emoções. É tudo muito complicado, mais complicado que explicar seu primeiro porre para alguém, afinal, porre é porre, e o primeiro é sempre o mais divertido. Não que você me deixe bêbado, lógico que não, mas a minha atração por ti é maior do que meu orgulho machista gostaria de revelar, minha atração por ti é tão física quanto emocional, um emaranhado de abraços e ilusões... Será que isso existe? Às vezes me pergunto se é tudo invenção da minha cabeça. Se fosse, que fosse sem fim, que fosse nessa bossa nova que só eu entendo.

Porém, não posso perder o foco. Escrevo agora, no começo de um novo dia, com novas pessoas, novos carros no trânsito, novos prédios explodindo, novas crianças nascendo. Escrevo agora porque há milhões de novas miudezas acontecendo e só me importa pensar nos seus olhos, que são os mesmos, os seus cabelos, que continuam da mesma forma, teu sorriso, enfim... A mesma que eu conheço e pasmo ao ver, com tantos detalhes diferentes, interessantes. Provavelmente entrei em contradição, mas você é assim! E me deixa assim também: deliciado, louco, muito mais louco do que, de fato, sou. Talvez seja esse mistério que te envolve, talvez a falta de mistério que te mascara, talvez eu que não saiba definir. Não é paixão, entende? Tampouco ódio, mas mesmo indeciso, entendo que existe algo, um tênue sentimento, que ganha proporções a cada dia.

Quem sabe em outra manhã ele exploda e eu morra de felicidade. O que você acha?

Estou sendo sincero, o mais sincero possível! Sinto falta, ciúme, paz, será que você pode me explicar o que é isso? Mas não estrague, por favor, pois estou me divertindo. Ultimamente tenho escutado música, de todos os estilos, e as que eu mais gosto são aquelas tranqüilas com ritmo de praia, violão ao fundo, cheiro de mar, vento fresco e a voz suave no refrão fazendo coro à minha. É tão natural, como respirar, dormir, comer.

É natural como poesia, e eu nem gosto de poesia. Estou rindo nesse momento, sabia? Espero que saiba, espero que sinta. Desculpe se sou um transtorno, um erro patético, mas, se devo ser sincero, não gostaria de me desculpar. Sou eu mesmo, só eu na mais completa imperfeição de ser.

Escuta comigo um pouco da música. Consegue escutar? Agora o cantor sai do compasso e fala palavras bonitas, quase estúpidas! Continuo rindo.

Desculpa-me se eu não sou perfeito, não tenho as qualidades de um campeão.
Desculpa se eu não sei dizer “te amo”. Mas e daí? Há outras expressões até mais bonitas do que essa.

Ou não.

Tenho que ir, estou com calor e com fome e com os olhos doendo. Daqui a pouco vai chover, tenho certeza, esse sol não me engana. Vou para casa. Vou para qualquer lugar. Por enquanto estou sozinho, desacompanhado. Mas o sorriso ainda está aqui, bem colocado no meu rosto, rindo de tudo, sorrindo pra todos.

Pra você, pra mim...

Pra sei lá quem, sei lá onde, sei lá.

“Hey, hey, hey

Your lipstick stains
On the front lobe of my left side brains.”

16 julho 2010

O Vão da Porta 4


Turbulento... Foi tudo desmedidamente turbulento para mim. Não sei ao certo em que momento, mas agarrei-me ao seu corpo inerte na tentativa de acordá-lo. Meus braços envolviam todo o seu peito e suas costas, sua cabeça pendia, suas mãos abriam-se completamente impotentes. Lá estava eu, segurando aquele que me fez rir e chorar por tanto tempo. Lá estava eu, pranteando um sujeito inconsciente, com a tola esperança de que minhas lágrimas tardias ressuscitassem o estranho que invadia o tão conhecido aconchego da minha introspecção. Não soube o que fazer, além de chorar, claro. E também não sei explicar o motivo de tal atitude, já que ele deveria ser para mim um sinônimo de repulsa. Sei apenas que os minutos escorriam no relógio da cozinha, com aquele tique-taque insuportável...
O amarelo que entrava pelas cortinas entreabertas indicava uma manhã fria, diferente das demais. Meu coração indicava reações diferentes das demais. Meus olhos evidenciavam tal fato.
E, novamente digo: tudo que fiz foi esperar um maldito milagre. Ou um sinal de que ele não voltaria a me olhar com o tão inflamado jeito de apaixonado arrependido. Em português claro: esperava vê-lo morto, quem sabe assim eu não me colocasse em posição de risco outra vez, não me humilhasse diante de um mero sentimento. Se ele morresse, sem dúvida, eu sentiria dor... Uma dor jamais experimentada por mim ou por qualquer maldito poeta, escritor, filósofo.

Porém, seus olhos abriram após dois ou três minutos. Dois ou três longos, aflitos e nostálgicos minutos de reflexão.

Silenciosamente, seus olhos foram abrindo pouco a pouco, mostrando o clarear da vida. E é justamente essa à hora na qual me encontro.
Minhas pernas estão dormentes, meu rosto está inchado, meus lábios úmidos pelas tantas lágrimas que continuam brotando sem que eu me esforce ou queira. Meus pensamentos disparam feito tiros no meio da escuridão. A mais profunda escuridão que já enfrentei. Uma obscuridade permeada de arcanjos caídos, corrompidos pelo medo de sentirem-se mais e mais humanos... Ou, o meu medo de ceder novamente às tentações.
“Oi...” Suas palavras saíram inesperadas, fragmentando meu raciocínio obtuso.
“Não diga nada agora, por favor.” Meu pedido foi sincero, visto que eu precisava esclarecer alguns pontos, antes que ele se levantasse e caminhasse pela minha sala. “Eu queria... Dizer algo que está preso na minha garganta. Preciso desabafar, porque é impossível continuar dessa maneira tão insuportável. Não posso olhar para você sem lembrar do que houve, quando éramos jovens. E, de repente te vejo na minha porta, esperando um convite de boas-vindas com o meu melhor sorriso de surpresa. Maldita surpresa! Meu universo ficou em choque, eu fiquei em choque!” Preciso fazer uma pausa de vez quando, escolher as melhores palavras e organizar as idéias para não perder a compostura (porém, é impraticável não transparecer a minha fraqueza, pois ele me deixou fraca).
“Se tivesse que fazer um apanhado geral, recapitular os últimos episódios de minha vida e dizer o motivo exato pelo qual os vivi, precisamente neste instante diria que foi tudo por você. Cada agonia enfrentada, cada palavra de solidão, a própria solidão, enfim, todas essas desventuras foi você quem causou, querendo ou não.”

Mais uma pausa dramática. Não sei quais termos usar.

“Quando menina, meu único sonho era encontrar o famoso príncipe encantado das fábulas. Na realidade, eu esperava que pudesse viver em uma constante fábula. Não tive tempo de conhecer meu pai. Meu avô sempre teve uma saúde frágil e minha mãe, bom... Você sabe tão bem quanto eu que ela vivia à custa de sua ilusão. Mas minha infância foi boa. E minha adolescência foi melhor ainda, principalmente depois que te conheci. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que nos vimos: estávamos em lados opostos do corredor, andando cada um com seus materiais e suas preocupações. Esbarramos-nos e eu te olhei de um jeito feio. E voltamos a nos esbarrar mais umas três ou quatro vezes (em uma delas eu tropecei, você quis me ajudar, mas recusei por orgulho...). Conversamos, como duas pessoas normais (como se adolescentes pudessem ser normais) na festa de quinze anos da minha amiga, que te convidou somente para nos conhecermos bem...” estou rindo, confusa e melancólica. Ele parece estar recordando esses dias dourados. Acredito que assim funcione uma iminente recusa: você diz que precisa despejar as tais verdades abruptas, começa com o passado mais que perfeito em que ambos vivam paixão, imprudência, aventura e romance. A pós-memória, porém, é outra história.

História essa pertencente ao particular dos casais... E o meu particular determina que eu continue falando de dias nos quais nos amávamos e rolávamos na grama sem as atribulações existentes hoje. Sem as despedidas que não foram dadas... As partidas repentinas...
“Escuta, por...”
“Não, não fale nada, por favor, deixe-me terminar, antes que isso me consuma, antes que eu não consiga respirar sem olhar o nosso caso mal terminado. Afinal...” Não chore, não chore, agüente mais um pouco, falta muito pouco...

Caí em fraqueza, sucumbi diante de minhas próprias desculpas.
Chorei.
Por um átimo de segundos, me arrependi de todos os erros cometidos.
Entretanto, logo essa sensação viajou para além de minha compreensão. E sumiu...

Ele se levantou ainda meio zonzo. Não pude e nem quis ajudá-lo. O que senti foi mais forte, arrebatador, eu diria. E continuo sentindo. Falar com lágrimas quentes rolando de seus olhos, passando pelo nariz, escorregando e invadindo cada canto do seu corpo como um intrometido que vigia, vasculha e sente prazer em vê-la sofrer piora em muito as condições de quem pretende argumentar...
Ou seja, não estava em condições de dialogar. Ainda não estou. Descrições são de bom tom, não é? Pois bem, mesmo com a visão embaçada, vejo-o sentado no sofá que fica exatamente ao meu lado: está com a cabeça baixa outra vez, provavelmente pensado no que eu estou pensado, tentando processar todos os fatos, todas as recordações e, esforçando-se para não chorar junto comigo.
Sim: essa situação toda pode parecer um extenso monólogo, mas as condições, as palavras, a paixão por trás da paixão. Tudo isso me motiva a continuar projetando um falso amor, uma esperança frágil, sensível como eu, doce da mesma maneira como eu era doce antes de me encontrar na solidão.

Está na hora de retomar o controle. Está na hora de finalizar.
“Eu te amo, é tudo o que posso dizer em relação ao nosso caso. É tudo que me resta, sairei ferida em mais uma ocasião e, por mais esforços que façamos, nosso conto de fadas chegou ao fim. Chegou ao fim exatamente quando você evaporou da minha vida, criando pústulas em um canto muito espaçoso do meu coração.”
Mais uma droga de pausa dramática em que pensei se deveria ou não falar. Eu falo.
“Sabe, por muito tempo me questionei: por que fugi de casa? Por que abandonei os caprichos que tinha? Por que você não me levou junto contigo na sua tão gloriosa empreitada? Por que me torturei tanto tempo sentindo essa saudade latente no peito? Mas, felizmente encontrei resposta: Eu nunca quis me separar de você. Nunca quis encarar uma realidade em que nosso relacionamento, do dia para a noite, não existisse mais. Vi por vezes o nosso primeiro encontro “oficial”, por assim dizer, quando combinamos de matar aula de química e nos encontramos na escadaria da escola, aquela que dava acesso ao refeitório. Ninguém nos incomodou naquela tarde, pois só existiam nosso ardor e o singelo amontoado de rosas roubadas por ti e oferecidas a mim, o qual chamei carinhosamente de buquê. E, interiormente eu agradecia a minha amiga por ter te convidado para a festa dela, sem ao menos conhecê-lo direito, com o único intuito de me ajudar, ou nos ajudar. Nós duas conversamos até hoje, sabia? O mais irônico é que ela é casada, tem um filho e está grávida de seis meses também. E esse eu esperava que fosse o nosso final... Ficar contigo para o resto dos meus dias parecia ser um compromisso simples. No casamento dela, eu fui madrinha e não parei, um só instante, de chorar. Não chorei por ela, chorei por mim. egoísta, não é mesmo? Tudo porque eu acreditei em promessas de adolescentes bobos.”

“Não diga isso”, ele sussurrou ao pé do meu ouvido, enquanto eu, sentada no chão na mesma posição há horas, contava minhas amarguras a um sujeito que não me é mais familiar. Olhei para frente tentando digerir a última frase. Impraticável. Impossível.

Injusto comigo e com meus sentimentos.
Por Deus, em qual hora estamos? Quanto mais demorarei a chegar aonde quero? Se é que quero chegar a algum lugar.

“Na realidade, nunca quis desaparecer da vista da minha mãe, nem abandonar meu avô, minha casa, meu quarto, minha cama... Eu gostava daquele espaço e havia aprendido a conviver com as pessoas que o habitavam. Mas queria te encontrar. Queria me encontrar. Como uma garota rebelde foge de casa e deixa o celular ligado para atender quando lhe for conveniente? Simples: Ela não o faz, esquece celular, telefone, qualquer meio de mostrar as caras. Portanto eu não fugi. Apenas dei um descanso a mim. E, me tornei extremamente egoísta, me tornei uma criatura insensível.”

“Você não parece tão insensível assim. Continua a mesma...”. Não podia suportar comentários desse tipo, vindos dele. Ou de qualquer outra pessoa. Rejeitei esses murmúrios, tentei afastá-los ao máximo. Tentei...

“Sempre que escutava nossa música tocando nas rádios, eu parava, onde estivesse, como se aquela música fosse o meu hino, um símbolo de paz, um lugar aconchegante, onde as lembranças eram ternas, como em um trailer de filme americano. E todos os nossos melhores momentos voavam na minha memória. A memória da garota estúpida. Da sonhadora infeliz. Da imbecil que... da imbecil que acreditou nas suas promessas!!!!!!!”

“Não, isso não é verdade, eu sou o culpado...”

“Nós dois somos culpados, e agora pensamos em cometer o mesmo crime de novo? Que tipo de criminosos nós somos? Não possuímos a capacidade de admitir sermos péssimos no que fazemos?”

“Deveríamos experimentar uma segunda chance...”

“Não dará certo, isso te garanto. Ficaremos presos, enjaulados nessa insanidade...”, dessa verdade ele não poderia escapar.

“Cause it's you and me and all of the people
With Nothing to do, nothing to lose
And it's you and me and all of the people and
I don't know why I can't keep my eyes off of you”.


Ele cantou o refrão da música. Ele ainda se lembra. Está na hora de encarar meu problema de frente. De olhá-lo nos olhos. Os malditos olhos que sempre pedem perdão.

“Quer cantar mais uma vez?”, pergunta tola, é claro que quero.

Passar o resto da manhã cantando a música que embalou meus sonhos de jovem apaixonada sem dúvidas é um capricho diferente. Triste, doloroso, mas necessário. Por um instante pude ver a praça onde costumávamos fazer esse tipo de coisa. Vi as crianças correndo atrás de cachorros, os senhores de idade jogando damas. E outros casais apaixonados.

Porém, não tão apaixonados quanto nós dois.

O frio crescia conforme o tempo passava. O sol ficava mais forte. Lá fora, o dia passava depressa ou devagar demais. Sinceramente não reparei nesses detalhes.

Nós dormimos no sofá por três ou quatro horas, acredito.
Foi bom. Todavia, é preciso terminar.

Dizem que, ao entardecer os mais íntimos desejos ganham ânimo, fôlego de vida. Os meus, porém, iam morrendo em uma quietude sepulcral.


“Eu nunca quis te abandonar. Muito menos deixar de amar você. Apenas fui fraco...”, eu sabia disso, ou pelo menos suspeitava.
Queria crer que fosse verdade.

“Eu nunca deixei de amar você, mesmo que pareça masoquista, insano ou clichê. O que significa que eu te amo. Ainda.”

E isso deve acabar. De maneira indolor. Bom, seria ideal assim, mas a realidade nem sempre é essa.

“Já está na hora?”, sua pergunta aliviou um peso das minhas costas, como sempre acontecia quando ele via que eu não suportaria dizer algo.


“Sim... Já está na hora.”

“Um último beijo de adeus?”

Será que devo? Será que isso me fará bem?Tantas perguntas e nenhuma atitude...

O fim de tarde não ajudava a diminuir a pressão sentida contra meu peito.
Talvez fosse amor, talvez fosse ódio, ou um misto dos dois.

O tempo passou depressa para mim, para ele, para nós dois e para ninguém mais. Eu derramei minha última lágrima por ele.

Acredito que isso basta.

“Me desculpe, mas não posso...”

“Nós nos veremos?”

Uma questão peculiar. Somente o destino tem poderes para responder.
Meus argumentos acabaram. Minhas táticas também.

O melhor a fazer é abrir a porta. Esperar que ele vá embora. Desejar boa sorte e até mais ver.

Pronto, a porta está aberta novamente, porém desta vez eu a abri para que ele saía de mim, do meu coração, da minha história.
Do meu passado não, afinal ele foi lindo demais para ser esquecido.

“Cuidado para não desmaiar outra vez, sim?”
“Claro, claro...”, ele cambaleou até a porta... Que fosse charme, chantagem, não funcionaria comigo. Não mais. A partir do instante em que ele atravessou minha porta e saiu da minha intimidade, eu não o ajudaria por um período indescritível.

E saiu. De uma vez por todas.
Para sempre enquanto o sempre existir.
Para o bem dele, e principalmente, para meu bem. Para a minha sanidade. O que restou dela.

Antes de sumir de vista, ele olhou para trás uma última vez e, movendo os lábios sem pronunciar som algum, disse: “Eu te amo!”

Assisti a essa cena, querendo não pensar nem sentir... Peguei algumas pétalas do buquê, que ficaram caídas na soleira.
Coloquei o buquê em um vaso...
Lavei o rosto...
Escancarei as cortinas para observar, atenta, a noite taciturna, despertando-se ligeiramente em um azul infinito, pincelado de estrelas prateadas e vibrantes, com alguns mistérios cá e lá, escondidos.

...E finalmente fechei minha porta.

07 junho 2010

Um leitor, uma pintora e um sonho de alegria


... Era uma vez um homem. Era uma vez uma criança. Era uma vez um sonho... O homem pegou um livro, a criança pegou um lápis, o sonho continuou na memória...

***

“Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios”

***

... Os dias foram passando, as pessoas melhorando, o mundo havia voltado a girar. O sol agora sorria, as rosas já não mais murchavam, os olhares desmentiam a indiferença... Tudo fazia sentido. O próprio sentido tinha sentido. Mas o luto persistia, o homem só fazia chorar. Abandonar o seu equilíbrio, capa de cortesia, decência intimada, palavra errada?

...Seria a loucura, a beira do precipício, o grande aviso, a derrota dos inabaláveis? Mas, e o sonho, onde fica nisso tudo? A criança ainda existe? Calma, meu amigo, pra tudo há seu tempo. A beleza da poesia está na magia com que as palavras são colocadas, decoradas com sucesso, bem acentuadas, quase perfeitas, quase... Eu não sou fã de poesia.

E, tocando dessa maneira nossa prosa, a criança tocava sua arte, gostava de pintar (apesar de não saber diferenciar as cores), achava graça do azul, preferia o vermelho (apenas um borrão mais intenso). Nada lhe afetava, nem mesmo a própria inabilidade. O outono começara. As folhas desprendiam-se das árvores, ganhavam o chão, terra firme, segura. O vento açoitava as noites, a depressão arrebatava aquele ser, o luto, a profundidade do abismo, o sarcasmo, o cinismo, a falta de hinduísmo... Ele tentaria a felicidade, se conseguisse alcançar a margem dessa praia...

***

“Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador”

***

Sonho? Que sonho é esse? Que esperança ainda resta, além da ida até a ponte, o sol, o crepúsculo, o horizonte? Bom, pelo menos o sonho não está mais na memória... Agora ele é potência, carência de alguém... Mas, ele tinha planos, gostaria de idealizá-los, transformá-los em uma entidade suprema, reluzente, um sol, uma saída, uma nova vida...

***

“Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos”

***

Quando menos se esperava, a criança falou: “Papai, vem cá ver o que eu fiz... Vem papai, por favor...”, antes que as lágrimas começassem a rolar de seus olhos e delinear suas rugas, o homem, sem vontade ou vivência, abriu caminho em meio aos seus desesperos, para poder socorrer quem sentia maior necessidade... E, ele disse: “Diga, minha filha, o que você fez?”, e a criança, uma garotinha, no máximo seis anos, doce, ternura em pele clara, doçura em tamanho de boneca, alegria móvel, motivação espontânea, brilho sincero: “Eu desenhei papai, eu desenhei você, eu desenhei a mamãe, a nossa casa... Mas eu não consigo desenhar o Mike... desenha pra mim, papai? Por favor!”, “Claro, eu desenho seu cachorrinho pra você, se isso te deixar feliz...”, e, ele derreteu-se em um breve momento de ternura... “Mas, papai, isso vai te deixar feliz também...?”, ele não pôde conter uma gotícula, transparente, minúscula, carregada de dor, carregada de passado...

E respondeu: “Vai sim, minha filha, claro que vai...”.

As horas poderiam se passar, as páginas do calendário poderiam até voar, eles continuavam seu ofício, sua distração... Se o mundo acabasse naquele instante, eles morreriam felizes... Pai e filha, um ajudando o outro a aliviar o peso da perda, o amargo gosto da intemperança... Traição do destino, família incompleta, o insuperável desejo de pular por uma janela aberta...

Mas, sempre há um sorriso pra se difundir, uma pessoa a se alegrar, um monte de gente pra acalmar, uma historia pra contar...

***

“Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz”
Charles Chaplin

***

E, sem muito a desmentir, mentir, iludir uma platéia, ferir uma idéia... Era uma vez um homem que não pretendia continuar lendo, ele tentaria viver, apenas vivendo. Uma criancinha que ia pedir a ajuda de seu pai quantas vezes fossem necessárias, com isso, tornar-se-ia uma ótima pintora... E, um sonho, o sonho... Bom, esse deveria luzir, oprimir e devanear, esse era seu papel, contudo, ele havia se tornado real... Uma concretização, iluminação, as portas de um mundo inaugural...

23 maio 2010

O Vão da Porta 3



Ligeiramente trêmulo, estendi o arranjo de rosas.

Nesse instante meu corpo todo se rendeu a um frenesi, um estado caótico em que minha cabeça parecia girar incontrolavelmente.

Uma deliciosa sensação de bem-estar invadiu minha alma. Quero falar. Será que devo? Não... Ainda não. Enquanto abria lentamente a porta, fui colocando meus pensamentos no lugar, ajeitando a bagunça, ou pelo menos parte dela. A minha bagunça, a minha insana ganância por aventura. Afinal, estragar esse momento tão único seria um tiro no próprio pé.

E o que menos quero é sair ferido.

Mas os princípios de falha desapareceram, agora que você tocou em minha mão e aceitou, mesmo que relutante, a minha primeira prova de arrependimento.
O nosso recomeço.

“E então, quer me dizer alguma coisa?”, seus olhos continuam os mesmos e suas palavras, tentando disfarçar, transpareciam uma ponta de carinho.

“Várias coisas... Você quer escutar agora?”. O medo de me explicar, sem saber quais argumentos usar contigo, gelou-me. Todavia, sua cabeça girou de um lado a outro, negando o desejo de escutar meias verdades. Com a porta completamente aberta, esperando minha entrada, pude ver o interior de seu refúgio; um ambiente somente seu; perfumado, limpo, aconchegante, discreto...

Desculpe, mas vou invadi-lo novamente.

Vou ingressar nessa última aventura antes de dizer que te amo. Uma aventura que vivi anos atrás e não consegui esquecer. Talvez porque tenha sido muito bom. Talvez porque eu tenha gostado demais de você.

E... Ainda gosto? Ainda espero de ti compreensão, carícia e mil beijos eternos?
Pé ante pé, entro devagar para não perturbar sua ordem. O sol, curioso e atrevido, lançou-se pelas cortinas entreabertas.

Continuo trêmulo e você decidida. Parece que invertemos os papéis e a novela perdeu parte de seu brilho. Pois hoje interpreto o coadjuvante covarde. Narcisismo meu? Confesso que sim, porém não nego o quanto estou indefeso. Inseguro. Não fique vasculhando cada canto de mim com esses olhos, os mesmos olhos que me prometeram eternidade, os mesmos olhos que, refletidos nos meus, viram uma verdadeira paixão. E gritaram de alegria, choraram de saudade, riram desesperados.

De repente fico tonto. As imagens vão se confundindo, brincando comigo.

Literalmente, pareço estar sem chão. Meu estômago está embrulhado.

“O que você tem? Precisa de alguma coisa?”, pude notar a aflição em sua voz... A preocupação com meu súbito mal estado.

As cores estão dançando, as luzes vão apagando... Eu preciso...

“De você...”

29 abril 2010

Meu Outono


Ontem acordei com a vista embaçada, ofuscada pela imensidão de meu vazio. Minha respiração ofegante denunciava a ansiedade contida em meu peito. Meu coração estava aos saltos, sem querer e querendo ao mesmo tempo. Suas piruetas eram tais que fui obrigado a ceder à tentação: levantei para olhar o horizonte.

Ainda era madrugada. O azul enevoado do céu pressionava o amarelo do sol. A manhã principiava sem demora; sossegada e quieta, ela aparecia em passos lentos e cadenciados.

Notei, displicentemente, que o outono torna a vida mais romântica. E solitária também, como em qualquer estação. Mas, verdade seja dita, o outono é a época das grandes paixões: depois da quentura do verão e as dores de cabeça de começo de ano e antes do frio insensível e pouco acolhedor do inverno. O exato momento em que as folhas envelhecidas caem formando uma chuva de desapego e separação; uma renovação inquieta que começa pelo fim e termina quando menos se espera...

Deixei meu olhar olhando a solicitude das estrelas que iam sumindo e brilhando antes de partir, como um adeus cortês. Pedi para meu tempo tomar conta do tempo que, embora pouco, me restava. Aos meus lábios dediquei à tarefa de beijar um beijo doce na ilusão dos sonhos amargos que tenho tido ultimamente. Fiquei a deriva; um torpor que subia aos meus pés e arranhava minhas costas até atrever-se na escuridão do meu pensamento. Um emaranhado de teorias e reconciliações, qual uma guerra sem fim ou um abraço esquecido.

Ao longe, sua imagem pairava suave. E aproximava-se em desassossego, correndo para meus braços. Queira ou não acreditar, minha cara, mas você gritava extasiada, frenética. Feliz eu, feliz você, havia razão em suportar o peso que suportava e falar o que falava, mesmo que as palavras fossem silenciadas pela magia do instante eterno e fugaz.

E eu ia ao seu encontro, tropeçando nos medos que caíam aos montes no chão. Um chão de terra, grama. Já não estava mais onde estivera. Se era loucura, creia-me, foi uma das melhores.

De repente, os primeiros raios de sol romperam sua figura em milhões de partes e seus olhos fugiram dos meus, junto com sua voz. Você foi sumindo da mesma maneira como foi aparecendo. As nuvens desapareceram. O azul-claro brilhava, a aurora cantava. Mas em mim havia dor. Não me queixo da tristeza em si. Nem da solidão.

Queixo-me de não tê-la como gostaria. Queixo-me de pranto pesado e soluços incansáveis.

Queixo-me de mil e uma coisas infindáveis enquanto houver a maldita covardia dos termos. E, contra eles não há argumentos que possam advogar a meu favor.

Só há uma certeza plena e indiscreta que insiste em ferver meus nervos: se for loucura, deixe ser a mais bela possível. Uma dessas em que o louco declama poesias ao vento e pede conselhos à parede. Até quando durará? Não sei; no momento importa somente a sensação e a atitude, o resto que tome seu próprio partido e busque sentido.

E se sussurrassem que amá-la seria o mesmo que esquecê-la, peço desculpas, mas meu amor é imperfeito e minha saudade é estrangeira, não possui passaporte nem visto e certidão, acho até que ela é indigente. Veio de outros e para os mesmos voltará.

Para que esconder um sofrimento tão bonito? Uma dor intermitente que causa um batuque tão suave. Uma lágrima quente que se finda em pureza, faz crescer esperança e fortalece a alma.

E então, quando finalmente acordei, você não estava ao meu lado. Minha cama estava vazia, os lençóis amassados, os travesseiros esparramados. A janela encontrava-se aberta. Levantei com custo para fechá-la: o frio vinha com a brisa e misturava-se ao seu perfume.

Quando cheguei ao parapeito para espiar a cidade acordando, ouvi um murmúrio indecente, fazendo perguntas sobre minha aparente insanidade.
A elas respondi prontamente, com gosto em cada letra pronunciada:

...é amor...

03 abril 2010

De um Amor Inconstante

Se a distância que separa teus lábios dos meus valesse o fim de minha solidão, talvez sonhar fosse uma tarefa tristemente insana, comparada à possibilidade de tê-la e amá-la.


Pois sim, os meus olhos procurando os seus, em mais profunda agonia, querendo encontrar e abraçar e brilhar no brilho do seu sorriso e no encanto das tuas palavras. E não encontrando nada, chorando pétalas de rosa e soluçando cartas de paixão.


Afinal, eu te amei com a imensidão de um céu no fim da tarde, com a cumplicidade enamorada dos tolos, como a aurora beijando o crepúsculo, os pássaros voando para seus ninhos. Uma criança perdida buscando um abrigo.


Eu te amei. E repetiria a façanha todas as manhãs e noites. Durante a madrugada e nas tardes sufocantes dos verões de janeiro. E se gritassem: “Deixa de ser bobo, essa loucura não te leva a nada!” Eu gritaria em resposta que amor não é loucura, e minha busca não é errante, é incerta, ligeiramente arriscada. Porque no fundo sei que ponho em jogo sua amizade. Sua confiança. Sua ternura. Mas, desistir novamente... Seria covardia.


Por anos meu silêncio acompanhou minha alma trépida, amando-te também, sem dizer verso, sem cantar rima ou estender elogios.


Fui escrevendo nas areias da praia toda a minha angustia. E, quando as ondas do mar, em fúria, apagaram minhas palavras, ainda havia dor em meu peito e apego em minhas mãos.


Não fui capaz de te esquecer. Pensei em morrer, mas a morte seria o fim de meus dias e o começo de novas batalhas, nas quais eu estaria longe do seu perfume doce. Do seu carinho tranquilo. Da sua risada envergonhada. Eu ficaria longe demais de você, e não há suicídio pior que esse.


Se, de uma nuvem nublada um anjo sentenciou: “Sofra as dores do amor”, como recusar tal fardo? Como negar o que sinto, sem dizer quem amo? Sem afligir-me dos pés à cabeça?


Eu sou quem pega os restos de afeição que você dedica para os outros. Eu sou quem vigia o teu sono, enquanto os demais tentam perturbá-la. Eu sou aquele que te espera e teme continuar esperando. Eu sou o sujeito, que escondido nas cortinas desse enorme palco, dedica a própria vida em um total e contraproducente amor. Eu sou quem não deveria ser, mas continuarei sendo, enquanto continuar desejando-a.

O único problema é que seus lábios estão distantes demais dos meus. E com isso...




Minha solidão não tem fim.

20 março 2010

O Vão da Porta 2


Não sei o que dizer.
Não sei ao certo se há alguma coisa a ser dita. Simplesmente estou perplexa.

Será um fantasma? Afinal, depois de tanto tempo, parece que me esqueci de como você é. Ou, pelo menos de como você era. Eu te amava, sabia disso? Eu tinha planos, tinha desejos, e o mundo não girava somente ao redor de suas vontades! Eu possuía um futuro escrito, acentuado e bem finalizado.

Mas, minha felicidade me deixou, foi embora com você, sem justificativa, sem piedade... Fiquei de mãos vazias, olhos vendados. Fui jogada à própria sorte. Como uma boneca de pano, que não fala, não respira e nem sente. Apenas um objeto.

Agora, você bate em minha porta dizendo: Tudo bem. Invade a minha vida outra vez, arrancando de mim o meu bem mais precioso: a tranqüilidade.

Meu coração vai batendo tal como um violoncelo desafinado.
Estou tentando conter as lágrimas. Cansei de derramá-las por ti. Cansei de ver o céu e procurar nas estrelas uma esperança de brechó. Uma oração milagrosa, uma frase amaldiçoada. Com o passar dos dias fui sentindo um amargo gosto no coração.

Após três meses de sua partida, decidi pegar nossas fotos e montar um álbum de recordações. Passei dois dias inteiros nesse projeto angustiante. Só pude dormir depois de vê-lo e revê-lo pronto. Lembro, como se fosse ontem, que tranquei a porta do meu quarto e minha mãe, do outro lado gritava histérica, que eu estava enlouquecendo. Mal sabia ela que já havia enlouquecido, por sua causa. Afinal, sempre havia sido você, do início ao fim meu sol era você. Minha estrela guia, a alma aventureira que se juntava a minha serenidade...

Sou sincera em dizer que pensei em me matar. Todavia, não pude. Imaginava se você voltaria. E, se voltasse, eu estaria morta... Seria injusto não pedir explicações para sua atitude, certo? Conclui que o céu poderia esperar um pouco mais. Ou talvez o inferno, ou nenhum dos dois. Quem se importa?

Meu mundo foi caindo aos poucos.
Desisti de conversar.
Desisti de sair com os amigos.
Desisti de aceitar ajuda e conselhos.
Desisti de estar aberta à novas experiências.

Só não desisti de vê-lo outra vez. Foi neste instante que notei a minha dependência em seu carinho, e sua ausência ia me ferindo e flagelando.

Resolvi mudar. Fugi de casa no meio da madrugada. Deixei um pequeno bilhete grudado na porta da geladeira. Cortei meu cabelo e fiz mechas avermelhadas. Sai sem destino, com a roupa do corpo, uma pequena bolsa e algumas notas para garantir a sobrevivência.
Comprei um maço de marlboro e coloquei no bolso de trás da calça. Aprendi a fumar sozinha. E também aprendi a parar com o vício, quando minha mãe, em prantos me ligou dizendo que meu avô estava internado, com câncer no pulmão. Não cheguei a vê-lo no hospital, não pude abraçá-lo uma última vez...

Depois de seis meses voltei para casa. Nem eu sei como me virei durante esse tempo todo somente com alguns pares de roupa. Quando deitei na minha cama de novo, chorei, gritei e tive pesadelos.

Amiúde, aquele amor preso no calendário sussurrava em meu ouvido memórias tristes, que abriam enormes rombos em meu peito. Cada anoitecer tirava de mim uma lágrima doída e um pedaço de vida repartido e esmagado.
Certa manhã suturei as feridas e segui meu caminho. Meu avô havia morrido, minha mãe era pura desolação. A casa cheirava a depressão. Lembranças demais, fotos demais, perdas demais. Um completo caos. Mas, foi nesse caos que encontrei minha ordem. Estudei várias semanas o que deveria ter estudado em anos, mas não fiz por estar ao seu lado. Fui recompensada: passei no vestibular. Cursei publicidade. Vi na faculdade um mundo totalmente novo.
Amores novos. Nada duradouro, apenas flertes, sexo e uma despedida digna, sem ressentimentos e promessas de namoro.

Sem o compromisso de estar ao lado de alguém.

Sem o compromisso que nós tínhamos.

Então, não me estenda essas rosas. Eu não mereço rosas roubadas de um jardim qualquer. Muito menos diga que tudo está bem, quando não está. Mas é impossível não reparar...
É incrível: você parece tão diferente, e tão estranhamente igual. Mais maduro, porém, sempre desajeitado. Sério, e também muito brincalhão.
Pare de me olhar. Pare de usar esses artifícios baratos. Já fui pega por eles uma vez. Uma segunda vez seria estupidez.

Mas receio ser uma tremenda estúpida. Será que devo abrir a porta? Por sua culpa estou ficando aflita.
Tudo o que aconteceu comigo é sua culpa. Toda a desolação, toda a loucura, toda a paixão... E eu permiti que isso me atingisse.

“O que quer de mim?” Estou torcendo para que não me responda.
Torcendo para que escancare a porta e entre sem minha permissão. Assim terei motivos para odiá-lo ainda mais.
Contudo, o meu ódio se confunde com meu amor, e aquela tênue linha que os separa deixa de existir.
O que posso fazer? Não há uma resposta de ti. Só esses olhos de cão sem dono.
E eu: choro por dentro e por fora. Afogando-me no passado e rejeitando suas flores. Mas, devo confessar que são lindas. Não acredito no que vou dizer, mas digo antes que morra de frustração.

“Dê-me logo o buquê... E entre.”

09 março 2010

O Vão da Porta


Antes de partir... Eu não lhe disse adeus. Estava ansioso demais, sedento de vontade de ir embora.
E simplesmente fui.
Nada. Nenhuma carta, nenhum sinal nem mensagem. Muito menos uma prévia explicação.
Eu... Queria fugir a qualquer preço. E vejo, hoje, que essa foi minha pior decisão.
Afinal, agora, diante de sua porta, com um pequeno buquê de rosas na mão esquerda e, na direita a minha esperança, não encontro palavras para caracterizar minhas atitudes.
Nenhum pedido de desculpa será suficiente.
Nenhuma lágrima minha compensará a sua tristeza, nenhum esclarecimento de minha parte irá ser suficiente para quitar o número de vezes em que você implorou aos céus, pedindo que eu voltasse.
Mas, finalmente voltei.
E não espero ser recebido com carinho, beijos e um abraço apertado.
Ainda é cedo, bem cedo.
O sol está despontando, você, com certeza está dormindo. Porém, terei de acordá-la.
Não quero que você me entenda, pois sei que é uma tarefa impossível de se realizar.
Eu só quero que você me veja, para que eu possa vê-la também, olhar em seus olhos, sorrir ao seu lado (mesmo sorrindo sozinho). Se dissesse que te quero, estaria sendo honesto.
Se dissesse que te amo, estaria compartilhando uma suave verdade do meu coração.
Se dissesse o quanto desejo o seu rosto junto ao meu, lembraria dos meus dias de solidão. Lembraria de nossa paixão colegial, nossas aventuras adolescentes, nossos braços quentes nas noites de inverno.
Mas, se me perguntasse se eu te mereço, obviamente diria que não.
...Pronto, toquei a campainha. Talvez não devesse tê-lo feito. Talvez sua vida esteja melhor sem mim.
Talvez eu perceba o quanto preciso de você e uma dor, amiúde, irá me incomodar, dentro do meu peito...
E, nessa angústia de esperar e não saber o que fazer, querer e temer perdê-la, eu vou desistindo... Vou me afastando. De novo.
As rosas agora estão no chão, minha cabeça baixou, minha mão ficou gélida. Sinto-me fraco. Faltam expressões que descrevam meus sintomas.
Provavelmente é o mal do meu século. Ou o meu mal, ou o meu bem...
Ou o som dos seus passos do outro lado da porta, a chave entrando no buraco da fechadura e a maçaneta girando levemente...
De repente, seu rosto aparece no vão que separa a porta do batente. Você assustada por ter alguém a esperando tão cedo. Eu, aflito em ver sua reação.
Seus olhos se arregalaram por um instante. Agora, uma lágrima silenciosa desce discretamente, delineando sua face. E outras seguem o exemplo da primeira.
Pensei, primeiramente, em me aproximar. Antes, tenho de recolher as rosas.
Acredito que consigo, somente, estendê-las a você.
Exatamente como eu fiz em nosso primeiro encontro. Lógico que nele havia inocência, onde hoje há expectativas e frustrações.
Aliás, havia muitas coisas em nosso primeiro encontro. Havia o mundo e as estrelas, o céu e o mais puro infinito. E, neste momento, há apenas o diálogo de nossos olhares.
Tão tenso. Tão necessário.
E, se não quiser me ver nunca mais, irei entender. Mas não feche a porta ainda, eu preciso te ver só mais um pouquinho, mesmo sabendo que dessa maneira irei me torturar...
Mesmo sabendo que um dia você terá de fechar a porta, com ou sem a minha presença em sua vida...
Porque eu esperei tanto tempo para te encontrar, tantos fatos a contar... Todavia, a única coisa que posso lhe dizer sem tropeçar na própria língua é:
“Tudo bem...”

24 dezembro 2009

Natal

“... Mamãe?”
“Fala filho. O que foi?”
“Por que todo mundo está tão feliz assim? Por que tanta festa?”
“Porque é Natal, filho. E, nessa época, as pessoas gostam de fazer festas, gostam de comemorar a vida...”.

Silêncio. A criança vislumbrava a rua movimentada, direcionando cuidadosamente sua atenção aos homens e mulheres que transitavam com garrafas de champanhe envolvidas em sacos plásticos transparentes, outros com panetones empacotados, presentes embrulhados... Seus olhos brilhavam diante de tamanha euforia. Logo seria meia-noite e todos vibrariam de emoção, gritando, soltando fogos e brindando a chegada de um 25 de dezembro iluminado pela paz... De repente, a criança reparou em alguém que não estava tão feliz assim... Um senhor de quase sessenta anos, aparência exausta, barba a fazer, olheiras profundas, um sorriso que lutava para aparecer em seu rosto.

“Mamãe?”
“O que foi agora, filho?”
“Por que aquele velhinho não está brincando e conversando como os outros?”
“Não sei filho. Quem sabe ele não gosta do Natal ou... qualquer coisa nesse sentido. Mas, qual a importância disso?”-disse a mãe, indiferente.
“Ele deveria estar bem, como às outras pessoas... o Papai Noel vai dar um presente a ele? Se isso acontecer ele pode ficar contente, não é mesmo?”-sua face ganhara vida ao se lembrar do fato. Ganhara expectativa.
“Talvez, filho, talvez...”.
“Mas sabe, mamãe, eu nunca vi o Papai Noel... Ele existe mesmo?”

Então, a mãe teve de tomar uma atitude. Baixou o olhar apara seu filho, suspirou profundamente e disse, com toda a coragem e seriedade que encontrou dentro de si:

“Eu também nunca o vi, filho. Mas ele existe. Sabe como eu descobri isso? Vou te ensinar. Feche bem seus olhos, fique quieto um pouquinho, esqueça de tudo que está a sua volta. Se concentre bem, entendido? E então, o que você está ouvindo?”

Por um instante ela temeu ver o filho decepcionado. Contudo, um sorriso repentino encheu seu rosto...

“Tô ouvindo sim, mamãe...”.

Para aquela criança o mundo parara de girar. O único som vinha de dentro de seu peito. Um som distante e caloroso que lembrava uma sonora gargalhada. Uma gargalhada digna de Papai Noel. A mãe respirou aliviada, percebendo o inevitável:




“Ainda havia esperança...”.

11 dezembro 2009

A Ironia dos Tolos

Seu olhar baixou ante o inevitável. Aquela seria sua reação? Aceitar a morte de
um sonho, como se sonhos e objetivos e tentativas estivessem nas esquinas, esperando por um dono?

Fraco.

Novamente a maldita voz açoitava seu cérebro. Era uma facada em seu coração ensangüentado. Era a desilusão zombando de um tolo. E que grande tolo, afinal, amar não o bastou, ele precisou buscar o invejável, o impensável, almejou demais sem saber que o que possuía já o completava. Ele não enxergara a verdade bem diante de seus olhos, e agora pagava por tais idiotices.

Ele havia tentado recuperar a dignidade, pelo menos. Mas, de nada vale uma dignidade falida, velha e obsoleta. De nada vale tentar recuperar o que não é possível, quando o fim se aproxima e a noite desponta no horizonte de esperanças.

Portanto, sua vida nada mais valia...

08 dezembro 2009

Paixão Enluarada

A Lua brilhava intensamente naquela noite de primavera. O vento fresco principiava uma chuva fina e passageira. Ao que tudo indica, nenhuma nuvem ou tempestade iriam opor-se a majestade da Madame pomposa e prateada, ou pelo menos, não atrapalhariam por enquanto... Pois, do alto de sua morada, a mesma assistia a vida e, com ela todas as desventuras que nos assolam.
Sendo honesto, ela, a senhora da noite, a dama do cabaré estrelado, ria da desgraça alheia, tal como o público ri de um palhaço. Especificamente, os risos voltavam-se para um tolo jovem, com o rosto encoberto pela treva, sentado na escadaria do Teatro Municipal. Seus joelhos estavam dobrados de forma que seus braços envolviam-nos em um abraço, um sinal de proteção, ou desespero. Se ele chorava, não sei dizer. O que posso afirmar é que nenhum carro passava pela rua, nenhum transeunte perdido pedia esmola ou ajuda. Naquele instante... A vida encontrava-se em luto, e a cidade aquiescia com o seu silêncio.
Morte, guerra, fome, que caíssem todas as pragas sobre o mundo, pois àquela hora pertencia a eles. Por direito e decreto, ela lhe devia explicações. E ele, sem pensar duas vezes iria ouvi-las, assim, em uma possibilidade remota, sua lógica pudesse compreender o que o coração há muito negava admitir. Assim, os olhos entenderiam porque as lágrimas caíram e secaram e perderam o cristalino cintilar entristecido.

Por quê? Por que isso tem que acontecer comigo?
Por que não posso passar de um simples amigo
Por quê? Por que eu não posse ter ela pra mim?
Eu não tive um começo, então como que eu tive fim?
Alguém me explique, por que as coisas têm que ser assim?
Ela nos braços de alguém que só lhe fará mal
Eu sempre sozinho no final
Caminhando e pensando pela rua
A minha única companhia é a Madame Lua
Mas até ela parece ignorar minha presença
De qualquer jeito, não faria muita diferença.
Eu continuaria nessa droga de estado depressivo
Somente porque ela recusou meu pedido...
As coisas têm que mudar, eu preciso de uma mudança.
Eu já cresci, não sou mais uma criança.
Mas então por que eu me sinto inútil, um bosta.
Eu não sei o que fazer,
Alguém, por favor,
Preciso de uma resposta...

-Infelizmente, ó pobre coitado, você joga palavras ao vento e desperdiça sua preciosa e tênue sanidade, se perde em conclusões e especulações que não o levam a lugar algum. Toda essa história patética de amor e essa sua ingenuidade de garotinho que não saiu das barras da saia da mãe... Por favor, poupe-me de joguinhos de chantagem. – a Lua, inescrupulosamente, deleitava-se com o espetáculo que assistia, trovejando risos por todos os cantos do céu. A garoa iniciava a valsa da madrugada, molhando e limpando as avenidas de São Paulo. Molhando e naufragando a esperança do jovem que, sem nome ou endereço, ousava insinuar toda sua complexa rede de sentimentalismo. Todo seu o complexo e frustrante amor...

Sanidade? Que sanidade?
Juízo, eu já tinha pouco.
E desde que a conheci,
Tenho me sentindo cada vez mais um louco
Guiado pelos meus instintos e não meus pensamentos
Esses instintos me levam para esse quarto cinzento
Onde eu sento e tento criar coragem
E ainda tenho que ouvir de você que tudo isso não passa de chantagem?
Quem é você para falar algo sobre amor?
Você fala como se fosse algum tipo de rainha
Mas você não percebe que você também está sozinha
Flutuando nessa imensidão do espaço
Apenas desejando alguém que possa te dar um abraço
Mas as estrelas estão a anos-luz de distância
Algumas estão ao seu lado, mas nem assim te dão importância.
Então por favor, pare com toda essa arrogância.
Então se acalme, pare e pense.
Perceba que eu e você
Não somos tão diferentes...

Após o desabafo, a Lua quedou-se perplexa em reflexão. As gotas finas que caiam do céu, rodopiando na madrugada e, com um baque suave atingiam o solo, compunham a orquestra que acompanhava o triste olhar da Madame prateada. De repente, ela havia dimensionado o quanto se sentia só, impotente ante o sentimentalismo que sua imagem transmitia, sua ironia agora de nada valia. Nem mesmo sua voz aveludada poderia quebrar aquele torpor frio e calculista. Sem se dar conta, ela sentia piedade de si mesma. Inferiorizada pelos argumentos de um mortal, que lá de baixo, conseguira comovê-la. Todavia, ela não iria permitir mortificar-se por... Frases feitas vindas de alguém que mal sabe da eternidade e os sacrifícios a serem pagos em favor das estrelas e constelações.

-Cale-se mortal, basta com o show. Você nunca entenderia o quanto é necessário a minha solidão... – seu tom sóbrio punha fim a qualquer tentativa de diálogo. Estava seca e farta de declarações estúpidas... E também de desgosto.

A pulsação do garoto acelerava, seus hormônios bombeavam a sutil adrenalina dos apaixonados... Ele a queria mais que tudo, mais que a vida e a memória. Porém, ao escutá-la debochando de seus sentimentos, uma enorme ferida fora aberta, deixando escorrer não somente o sangue, mas também uma parte de sua indignação, raiva. Afinal, mesmo para o amor, há um limite.
Ele baixou a cabeça e fitou o chão durante, o que pareceu ser, uma eternidade. Seus músculos estavam exaustos, seus olhos inchados pelas lágrimas quentes, sua boca almejava a boca da amada, e nada mais. Foi então, que o clímax de loucura e desilusão tomou posse desse herói fracassado... Divagou com o mármore e o concreto da escadaria, listou os problemas da vida, da morte e atreveu-se a dizer, gritando para o alto, exibindo sua face ante a frieza da natureza selvagem da chuva e do vazio:

Ela quebrou meu coração
Quando foi que eu dei esse direito?
Ela o quebrou em pedaços
E enfiou os cacos no meu peito
Uma imensa dor me foi entregue
E aquele não, aquele não ainda me persegue.
Peguei-me acordando de madrugada
Me lembrando de como ela ficou calada
Como nenhuma palavra ousava sair de sua garganta
O mais engraçado é que isso ainda me espanta
Eu já devia estar acostumado em ser rejeitado
Em amar e nunca ser amado
Essa insanidade está acabando com minha vida
Minha mentalidade já foi toda perdida
Sinceramente eu não sei o que ela procura
E até eu descobrir
Estou condenado a viver nessa loucura.

Por que nesse delírio, as imagens voavam, as lágrimas ardiam e os movimentos feriam o corpo como mil agulhas sendo enfiadas de uma só vez em um cadáver? Como poderia um ser que respira, fala e anda conviver com tal peso pelo resto de seus dias, enquanto a existência fosse uma boa opção? Essas dúvidas açoitavam cada centímetro desse coração juvenil. Qual seria a fronteira que separa amor de paixão? E paixão de delírio? E delírio de suicídio?

Em qual instante derradeiro ele encontraria as respostas para tais perguntas, se sua cabeça logo explodiria em rejeição?

A desilusão chegou a pontos estratosféricos. Era praticamente impossível conter os berros que travavam na garganta do jovem entristecido. E mesmo que ele berrasse, seriam berros emudecidos pelo som de sua frustração, que ribombava dentro de seus ouvidos e batia em ritmos cardíacos. Definitivamente, ele se encontrava em uma encruzilhada. Desistir? Aceitar e baixar a cabeça, como se nada tivesse acontecido? Esquecer, aos tropeços e empurrões essa dor pungente, ainda que isso lhe custasse noites sem dormir, relembrando aos prantos todos os segundos de intensa emoção vividos? Deixar de lado essa vontade... Seria um erro. Mas, insistir nesse erro seria seu fim. O céu enchia-se de nuvens densas, pesadas... A garoa agora era uma chuva. O tempo lançava seu veredicto sobre aquele julgamento de justiça e infortúnio: que o destino ficasse encarregado de dar ao garoto um novo sentido, um novo objetivo...

Agora a chuva só está piorando
Aposto que você deve estar adorando
Ver o idiota aqui molhado gritando com o nada
Então vai logo, dá uma risada.
Quero ver esse teu sorriso
Aproveite enquanto eu ainda tenho juízo
Porque juro para você eu não estou agüentando mais
Cansei dessa história de ser jogado para traz
Cansei de achar que alguém gosta da minha pessoa
Cansei de me derrubarem do trono e roubarem minha coroa
Não que eu acho que sou algum tipo de rei
Eu vou fazer grandes coisas, e sei que irei.
Mas vocês não me deixam ser feliz
Eu peço um pouco de amor
E eu ganho mais uma cicatriz
Então por mim vocês todos podem queimar no inferno
Quero que a tua dor e teu sofrimento sejam eternos
Depois, que seus corações virem gelo no mais forte frio.
Uh, o que foi? Você acha isso muito doentio?
Talvez eu devesse falar menos
Ai então vocês não se sentiriam tão pequenos
Pode esquecer! Eu vou continuar aqui
Vou ficar falando até que alguém venha me impedir
E é melhor que ela venha e me ponha numa cadeia
Aí eu não vou ter que ter essa convivência alheia
Porque eu desisto!
Desisto de vocês, das pessoas e do mundo!
Eu queria morrer!
Me daria bem melhor como um defunto
...
Não, não, esse não sou eu.
Só estou falando isso porque estou cansado
Eu não sei o que fazer! Meu Deus
Preciso ser resgatado...

Relâmpagos cortavam o acinzentado do céu e projetavam seu brilho esbranquiçado por entre as nuvens, como espectros, fantasmas que obscureciam a Lua e invadiam os olhares curiosos. Definitivamente, a tempestade havia começado, sem avisos ou mensagens de alerta, ela viera intercedendo a favor dos tais acontecimentos que assustavam até os mortos. A discussão acabara tal como o surto de ódio, e só restava aos sobreviventes daquela batalha juntar as sobras de vida que ainda persistiam e seguir em frente.
A Lua sumira do alto de seu pedestal. Explicações e desculpas eram inapropriadas para o momento, já que as palavras do jovem diziam todo o necessário. O mundo encontrava-se indiferente. A cidade que mergulhara em silêncio, respeitando o confronto de amor, despontava em completa normalidade. Viam-se alguns sujeitos mal encarados andando sorrateiramente, uma bicicleta aqui, outra ali. Logo os edifícios e casas despertariam, os cachorros latiriam, os assaltos voltariam a ocorrer, a poesia discreta e geométrica do ambiente retornaria aos seus bons poetas: os cidadãos... Tudo em estado de tranqüilidade cotidiana, como se nunca houvesse tido briga, choro, ironia e gritaria. Seria mais uma madrugada comum na história das ruas assombradas da metrópole. Não haveria mártir, certo ou errado, mocinho ou vilão. Pois, ninguém conheceria, de fato, o enredo que constituiu e afligiu a vida do garoto. Não saberiam nem mesmo o seu nome.

Um indigente em meio a um cemitério de almas acorrentadas.

Foi então, que fugindo a embriaguez da raiva, ele viu um vulto distinto entre os demais que assomavam na paisagem distorcida pelo dilúvio. Em sua mente exaurida, era mais um vulto, que saía de sua toca, procurando por uma chance de sonhar, ou viver... Baixou a cabeça novamente e voltou a pensar, a chorar. Olhava para o chão, a fim de encontrar uma saída, um refúgio seguro que suportasse todo o horizonte enevoado que se estendia dentro de seu peito. Um horizonte coberto de treva, de amargura e solidão, em que todos os elementos assumiam um ar de velório, tal como ele via aquela noite. Ensopado dos pés a cabeça, provavelmente ficaria resfriado. Mais essa, depois de tanta desilusão só lhe faltava um maldito resfriado e uns dias de cama. Merda! Nem sempre as coisas funcionam como planejamos, mas para aquele coitado, nada saiu como pretendia. Ele buscou demais, tentou demais, brigou demais... Sem saber, que por vezes, a solução é simples e engenhosa, adequa-se aos padrões e satisfaz as necessidades.

- Posso me sentar aqui? – uma linda voz de seda avermelhada invadira a redoma em que o bravo herói derrotado estava vivendo. A portadora da voz também era dona do vulto solitário que chamara a atenção, instantes atrás: uma linda jovem de pele clara como... A neve ou o brilho de uma estrela. Seu cabelo loiro longo formava ondas douradas enquanto caía, suavemente, pelos ombros e colo. Era mais uma adolescente, uma teennager de calça jeans, moletom preto e um All Star velho, mais uma que almejava conforto em uma escadaria de lamúrias e romances... Também estava encharcada, parecia tremer um pouco de frio. Um sorriso envergonhado perpassou seu rosto de finos traços. Um sorriso encantador. Seus olhos azuis lembravam o céu amanhecido durante o inverno. E eles estavam inchados por lágrimas doloridas. – Me desculpe, devo ter atrapalhado algo... Eu vou sentar em... – o garoto estendera o braço e segurara levemente o pulso da garota. Bastou um toque e tudo ficou esclarecido. Ela o olhou surpresa e nitidamente corada. Outro sorriso, mais uma vez envergonhado, porém, palpitava em ambos uma sensação de recomeço. Alegria espontânea. Uma felicidade primaveril, que só é vista após longas noites de pesadelo e tempestade...

Prontamente a chuva abrandaria sua fúria, deixando vestígios de seu ímpeto. Logo a harmonia reinaria sobre as construções outra vez.

Logo, a cidade iria amanhecer...

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Bom, esse texto eu escrevi com um brother, o daniel. Ele escreve muito bem e eu achei que ficou muito boa essa parceria. Qualquer coisa, visitem o blog dele tbm: http://ultimoromance.tumblr.com/ ... É isso ai, espero que vcs gostem do texto!