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19 janeiro 2012

Saudosas Putas de Janeiro

Toda noite ele tomava uma xícara de café
Antes de dormir.
-Seus olhos gritavam o verão lá fora
E o verão gritava o mesmo que os olhos:

Pleonasmo.

Não que fosse errado matar-se em nome de outro suicida
Não que fosse divino cantar o pecado da luxúria.
Entretanto, ele sentia medo, e seu estômago arrulhava
Feito pomba, voando de si para o fim.
Talvez, à noite, sua avó aparecesse
Dando conselhos de Madre Superiora.
Ou seus pais o censurassem.

A solidão de toda uma catedral pesava.
O travesseiro menstruava as dores todas.
O colchão abria-se em lençóis egípcios.

-Em estado faraônico, urrava.

Enfim, as Saudosas Putas de Janeiro
(putas de um ano inteiro)
Entregavam-se aos prazeres cariocas.
Elas eram o problema:
Eram putas enfisemas, cancerígenas.
Putas mulheres, que se faziam
Muito mais mulheres
Quando não chamadas de putas.

Pois que ele escutava vindo delas,
Sussurrava ao lado delas
Sussurros de uma Paris Enlouquecida.

-O riso,
O ritmo,
A rima.

-A rara intimidade que surgia entre eles...

E todas as noites, ele tomava sua xícara de café:
Seus olhos não pregavam.
Os gritos continuavam.
Os Faraós o abraçavam.

As putas mulheres (intimamente preferidas),
(intimamente apaixonadas),
(aquelas das risadas).
Elas eram as Saudosas Putas de Janeiro
(putas de um ano inteiro)
-Que se acabavam em luxúria...

...E partiam.

25 abril 2011

Notas Sobre a Perfeição

…Se você não é perfeito, aprenda... Se você se acha perfeito, perceba que existem pessoas melhores...

I see trees of green, red roses too.
I see them bloom for me and you.
And I say to myself what a wonderful world

***

“Hoje eu preciso lhe contar um segredo... Algo que faz parte de mim, mas não me pertence por direito, e sim por ganância...

Algo tão profundo e precioso, que, mesmo com o passar dos dias no calendário, nunca perderei, destruirei ou deixarei de amar... Esse segredo deveria ser seu, e com ele, toda a sorte de pedidos e negações, de lágrimas e sorrisos...

Não sei por onde começar... Nem o começo me basta como desculpa... As palavras escapam das vírgulas e acabo por tropeçar nos pontos finais... Perdoe-me... Essa é a única coisa que lhe peço, antes de viajar pela narrativa dos fatos...

Nunca almejei sequer uma moeda de cinco centavos, não faz bem pra alma sentir inveja, não faz bem pra mente devorar, com os olhos, o que não lhe pertence... Mas, eu caí na tentação... Deixei os anéis escorregarem de meus dedos, perdi o controle, fui longe demais e, ultrapassei a linha do bom senso.

Invadi seu espaço, furtei sua tranqüilidade... E agora...

...eu sou perfeito...

Não negarei que sou perfeito, que criei um mundo onde a lei remanescente é a perfeição. O que posso dizer? Sou obcecado por isso, essa é uma das minhas grandes qualidades.

Contudo, sempre há culpados...

...E você é um deles... Sempre me esnobando com seus superdotes e as suas supermaneiras de viver feliz e rico, e saudável, e limpo... E perfeito...

Droga, mesmo quando criancinha, eu me sentia ridicularizado pelo seu jeito What A Wonderful World de viver... Não pude superar o trauma, meu sangue todo fervia por essa idéia tão presente em seus olhos... E, resolvi, sem mais nem menos, roubar essa tal perfeição... Devo admitir que gostei muita dela... E hoje sou um dependente, um viciado, tal como os viciados em maconha, heroína...

“... Sou vidrado por tudo perfeito...”

***

I see skies of blue and clouds of white.
The bright sunny days, the dark sacred nights,
and I say to myself what a wonderful world.


***

Numa cidadezinha, no interior de um distrito, as pessoas eram alegres. Sorriam muito, acenavam a cabeça, cumprimentavam uns aos outros, lembravam-se dos nomes de todos, caminhavam de maneira impecável...

Era lindo, um mundo sem desconfiança, sem brigas, sem poluição sonora ou visual... As garçonetes, dos restaurantes, sabiam exatamente o que cada um pediria. Os banqueiros tinham uma noção, exata, da quantia que o cliente iria sacar, no banco. Os farmacêuticos tinham a dose necessária de qualquer remédio...

As mulheres eram ótimas donas de casa. Os homens, ótimos provedores. Os filhos, adoráveis criaturas, que não respondiam aos pais...

Os cachorros só latiam se houvesse ladrão, mas não havia roubos lá...

Os policiais eram incorruptíveis, o prefeito era gentil, o pároco muito honesto, os fanáticos religiosos sempre muito ponderados...

As estações eram muito lindas: a primavera com seu ar de harmonia, o verão esbanjando vida, no outono as folhas secas ganhavam brilho, magia e, no inverno o céu azulado e frio resplandecia... Não havia um só dia em que as intempéries da natureza deixassem o mistério de sua plenitude...

-Oi, prefeito Timóteo!

-Boa tarde, madame Joana. Como vai o Ricardo?

-Muito bem, obrigada! E sua esposa?

Todos assumiram um método voyeur neoclássico, menos ultrapassado, mais distante... Pois, apesar das perfeições, as pessoas ainda se diferenciavam pelo olhar vazio, o rosto apático, uma fachada mal feita de uma ilusão temporária...


***

The colors of the rainbow are so pretty in the sky.
Are also on the faces of people walking by.
I see friends shaking hands sayin' "how do you do?”
They're really saying "I love you".


***

“Eu nunca quis te machucar, essa nunca foi minha intenção... Se o magoei quando pequeno, por favor, me perdoe também Essa historia de perfeição, de esnobar e... Isso não existiu, eu e somente eu, sei quantas vezes falhei ao tentar lhe impressionar, ao tentar me impressionar...

Sou antítese da calma, o contraponto da esperança, a desilusão da vitória, sou um verdadeiro fracasso... E agora, mais do que nunca, me sinto um lixo... “Foi uma troca injusta, errada, porque eu causei esse problema, que agora é seu também.”

“Não se culpe, eu aceitei toda a situação muito bem! E sim, foi uma troca justa... Você me deu sua perfeição e, eu te dei minha sanidade... Onde está o erro? Rio só de pensar que... Que...

É hilário, cômico. Fantástico. Insensato...

Perfeito!”

***

Apesar da falsidade vivida pelos moradores da cidade pequena, nada nem ninguém poderiam perturbar a ordem vigente... Até que um dia, apareceu um sujeito mal vestido, mal encarado, mal olhado...

Daí em diante, foi desencadeado um efeito dominó. A população, em estado de catástrofe, começou a tomar providências... Não havia uma só pessoa que discordasse das ordens do prefeitinho quanto ao tema: cuidado com o forasteiro...

...Uma bela noite, quando todos pensavam em recostar suas cabecinhas no travesseiro e dormir, sonhar... Um barulho sobressaltou uma vizinha já velhinha, coitadinha, toda cheinha de rugas, com fofocas na ponta da língua...

...E nesse instante ela surtou... Pegou seu pequeno revólver prateado, carregou-o e, sem pensar duas vezes, saiu noite afora...

-Quem está aí?- disse com sua voz rouca... A voz também parecia ser enrugada...

...Silêncio...

-Quem está aí? Responda!- a essa altura, alguns vizinhos haviam acordado... - Se voc... Ahahahahhaahahahah- ela foi surpreendida por um vulto alto e maltrapilho...

PLIM, PLIM, PLIM...

Três tiros.

Um alvo.

Uma morte.

Um escândalo...

O prefeito chegou o mais rápido que pôde, afinal, ele era gordinho e baixinho, portanto, ele não era atlético...

-Tudo bem, tudo bem... O pior já passou agora ele não nos oferece risco nenhum...

E, naquele vilarejo sem dono e sem endereço, as pessoas sentiram o significado de perfeição, uma coisa que, sem dúvida, não os cabia, nem os rotulava... Era mais uma palavra, mais um vocábulo retorcido e gasto...

E, o prefeito ficou a consolar a velhinha, os senhores, despertos, davam um jeito no cadáver indesejado, as outras donas de casa faziam uma roda em volta da boa samaritana e de seu consolo gorducho, as crianças choravam. Logo, a vida voltaria às ordens de sempre...

...Realmente, o pior havia passado...


***

I see babies cry,I watch them grow,
they'll learn much more than I'll ever know.
And I think to myself what a wonderful world.


***

“Acho melhor você descansar...”

“Não, eu quero estar acordado quando acontecer... Quero sentir na pele...”

“Certeza que é isso que você deseja?”

“Certeza absoluta... É isso que eu mais quero... No momento... Afinal, vai ser apenas um choquinho, não é?”

“Não, vai ser uma injeção na veia... Talvez você sinta uma picadinha, nada além... Por quê? Algo lhe assusta?”

“Não. Na realidade assusta sim… Sim... E se... Apenas se... Eu não for perfeito?”

***

Yes I think to myself what a wonderful world.
And I think to myself what a wonderful world

29 janeiro 2011

Flor de Narciso

Todos tem segredos.

Íntimos.
Doces.
Encantados.
Até os mais transparentes e indomáveis carregam, no fundo do bolso, uma caderneta preta repleta de detalhes escusos. Restos de infâmia e loucura...

Mas nós não.

Nós somos a exceção dessa regra formidável.

Ultrapassamos a luxúria escarlate, feita a imagem e semelhança da cobiça, e conceituamos, de maneira indecente, a sensualidade.

O que temos é um jogo de poderes e desilusões.
Um samba de quintal, manso, malandro.
Um pouco carioca.

Ou talvez não tenhamos nada.
Apenas um ao outro,

Será que é isso?
Será que não?
Prefiro dizer que somos, simplesmente, queridíssimos por esse mistério tão complexo e desajeitado.

Somos desejados por todas as pessoas que respiram, que nos comtemplam, que nos refletem.

Porque somos assim, sem mais ou menos.
Porque não exigimos nada exorbitante, quiçá amizade.
Porque existem mil e um motivos que nos definiriam entrelinhas.

Nós somos entrelinhas.
Somos, seremos, fomos.

Quase intocáveis.

31 dezembro 2010

30 dezembro 2010

...

Está tudo tão abstrato, ou eu preciso de um novo óculos? Quem se importa, afinal, após passar uma noite inteira regado a Dylan, Pink Floyd e Radiohead, é necessário dormir, comer, pensar?
Não, somente sentir! Acho que preciso de férias, ando muito cansado. Mas estou de férias, portanto eu preciso... de que? Essa sinceridade exagerada ainda me mata...
Vou beber alguma coisa, talvez distraia minha cabeça, talvez eu desmaie.
Sempre o bom e velho "talvez"!!
"Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Acredito no coração"

21 julho 2010

Ahnn...

"...Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só..."


...mas eu continuo só.

E sem luz na minha escuridão. Não é verdade?

21 fevereiro 2010

...

No final da guerra, sou eu quem carrega as cicatrizes das batalhas...

13 fevereiro 2010

Incompreensão


Amar é viver o inferno, ver o fogo ardendo e o paraíso, lá longe, cada dia mais distante.

Amar é correr com a certeza de ser o último a atingir a linha de chegada, sem ninguém para aplaudi-lo e ovacioná-lo.

Amar é perder, sem ser ressarcido. E continuar perdendo, enquanto continuar amando.

Amar é trair a si próprio, enganando-se com as verdades que o coração inventa e a mente aquiesce.

Amar é sofrer com o que não se possui, sofrer com que o não se pode silenciar e corroer a alma com os segredos que vão corroendo nossos lábios e amargando nossos olhos.

Amar é uma constante entrega, que só tem fim com o fim da própria vida.

Afinal, amar é chorar no desespero e rir na alegria. Brincar na felicidade e pedir perdão na hora da falha. É confessar seu espírito, mesmo não querendo. É sorrir no sorriso do outro, cantar desafinado, brindar a falência, ver morrer a decência e inibir a boa conduta.

Amar é algo que não se explica. Amar é fogo, e água, e terra e ar também. Amar é tudo, é nada, é saltar de um precipício com ilusões e anseios. É, novamente, ver o paraíso e querer um dia chegar lá.

Amar é uma dor extravagante, uma medalha de honra ao mérito, uma palavra sussurrada no ouvido, um soluço de adeus, uma declaração presa a garganta...

Amar é ser amigo e amante. É estar ao lado e sempre além. É não poder contar a verdade sem temer a reação de quem se ama.

Amar é um grito de socorro, um esconderijo perigoso em que se encontra alguém que compartilhe o seu medo.

Amar é uma frustração contente, uma satisfação incompleta e uma atitude de afeto.

Amar é amar, sem definições ou prolongamentos. É um sentimento que palpita e nunca segue reto.

Amar é ser você em outra pessoa, diferente e indiscreto. É pedir ajuda, pedir conselhos, andar de mãos dadas para não haver separação.

Amar é aprender, é dormir e acordar e entender que nada disso é sonho. É tentar, errar e continuar, sempre iludido, a amar, amando.

30 janeiro 2010

Antes


Já não se fazem mais os pedidos de antes. As fotos agora são diferentes. As palavras perderam aquele sutil amargo que outrora preenchia nossas bocas. Os olhares, que indiscretamente se perdiam e encontravam e partiam sem se despedir, hoje pedem indiferença e ganham ingratidão.

Já não se fazem mais aquelas belas paixões, em que o mocinho salvava a donzela, e o vilão morria de ódio ou catapora. Os desejos, que em outros tempos eram azuis, cor de anil, rubro-negros e uma infinidade de cores, agora se acostumaram a serem neutros, transparentes... Qualquer coisa, menos alegres.

É, parece que a vida ficou mesmo meio sem graça.

Não que eu reclame, afinal, há vezes em que é preciso esquecer o convencional. Mas, venhamos e convenhamos: o convencional era delicioso. Fantástico. Brilhante. E, sem querer, foi entrando no passado, criando raízes na tradição, beirando a insanidade e se alimentando de falsa esperança. Com o tempo, ele se tornou obsoleto e hoje não passa de uma engrenagem velha, feita por velhos e ridicularizada por muitos.

Por isso, ele é tão assombrado. Mal amado.

E, o que me deixa ensandecido: Nem as grandes promessas sobreviveram. No mundo em que vivo, não mais prometemos mil beijos e amor eterno, ou fidelidade e sucesso. Esbarramo-nos e criamos atração. Já não há o compromisso do existencialismo poético.

E a poesia era tão linda!! Tão cheia de vida, de verdade e mentira, tão intensa que chegava a reluzir felicidade. Ela nos fazia bem, nos enchia de vontade, de “querer e bondade” que aos olhos dos mais secos, as lágrimas caiam em gotas leves, e os mais emotivos debruçavam-se em oceanos de sorrisos.

Pois sim, houve uma época em que tudo parecia diferente, todos possuíam face e o malvado sempre era pego em flagrante. O conto de fadas não era proibido, e sonhar cheirava doce como chocolate. Ah, confesso que sinto falta disso: desses tempos áureos em que vivi por poucos anos e aproveitei tardes e noites, e algumas poucas manhãs. De fato, foi lindo ver o que vi, bicho.

Woodstock, repressão, exílio, canções subversivas, os caras pintadas: o suor da guerra por princípios, por crepúsculos tranqüilos e auroras encantadas. A busca por amor, por ideal. Ou o próprio amor ideal, ou a idéia de amor, ou qualquer coisa relacionada. Talvez esteja ficando velho e me lamentando por não ter conquistado aquela garota que tanto quis.

Talvez seja a mudança de gerações, talvez seja a falta de humanidade que se encontra em frases românticas de alguns filmes hollywoodianos. Talvez seja a soma desses meus tiques e manias. Talvez não seja nada.

Somente o passado, mostrando-se impiedoso. Provavelmente é aquele impulso de viver o “antes”. O que já foi, já se tornou recordação...

Só sei de uma coisa...

Hoje, aquele que é pego: escapa, o que é acusado: mente, o que provoca dor: finge, o que pensa: não age, o que fala: morre, o que ama: perde, o que sorri: se esconde, o que grita: se cala, o que rebela: se acalma ...

E o que escreve: espera, incessantemente;

...espera, incansavelmente;

...espera; ansiosamente;

...espera; calorosamente;

...espera, tragicamente...

...que as coisas mudem...

E, quiçá, continuará esperando.

20 dezembro 2009

Feridas de um Fracasso

…Cicatrizes são histórias gravadas em meu corpo, cena por cena, sentidas na pele e vividas em brasa, como o ódio e amor… Meu olhar é um vasto horizonte paralelo dos fatos em preto e branco, onde me perco em especulações desvairadas a respeito de meu ser, de minha palavra (a tão importante e angustiante palavra que não sai de minha garganta, esbarra nas sílabas e insiste em fracassar), e vou me encontrando sem querer, pedaço por pedaço, até que todas as peças se encaixem discretamente no que seria classificado como caráter, meu único e irrevogável caráter… Meu destino ainda declara-se como uma constante incerteza do absoluto vazio, uma loucura envolvida em razão e desculpas que se explica como normal para, apenas, manter uma falsa aparência, algo em transformação, erupção, sem razão ou objetivo, com a clareza de um pombo branco ou um simples feixe de luz…

Uma falsidade maquiada pelo egocentrismo, pelo medo de perder o posto e ser declarado “comum”. Uma série de fatos intermináveis que culminaram em desastres fantasticamente nostálgicos, com toques de ironia e piedade fingida. Um desrespeito à ordem vigente, que declara claramente o quão importante é estabilizar as emoções e controlar a fraqueza.

Uma anarquia oficializada e posta em prática.

Uma escuridão que me assombra todas as noites, no silêncio da morte.

Um pássaro negro que se esconde antes de alvorecer a esperança.

Um lado que existe e, que temo por aceitar, ser meu lado. A minha outra face, que assume as rédeas e dirige minha vida. E não teme, nem falha, nem respira...

Sobrevive apenas de mim. E do que sou.

17 dezembro 2009

Poeminha

Existem cenas que me encantam pela beleza do “ser” e “estar”.
Existem pessoas que eu amo pelo simples fato de amar.
Existem histórias que eu escrevo pela essência de viver.
Mas não existem palavras que descrevam o quanto eu quero você.

05 dezembro 2009

Espelho



Da trégua nasce a luz de uma noite enevoada. Dos olhos desce uma lágrima, uma exuberante lágrima azulada. E da vida, surge uma última esperança.

Exaurido de continuar andando, meus joelhos cedem ao desespero, meu corpo mergulha na terra, minha fronte é cortada, minha boca fechada.

Minha voz é silenciada.

De minha alma, a única essência é a incerteza.

Preso ao meu sonho, minha realidade paralela, meu universo primitivo e sofisticado, onde eu me conserto, me refaço e remodelo. Preso também a minha saudade, minha vontade irrecusável, em que as lembranças de nossos braços entre abraços e sussurros eram brilhantes durante a alvorada e se tornavam estrelas diante da meia-noite.

Gostaria de compor uma música, gostaria de expressar meus mais profundos sentimentos, adoraria emocionar platéias com uma ótima interpretação ou um poema bem escrito.

Amaria compreender o amor, escrever amor, desenhar amor e suspirar paixão incandescente. De fato, seria uma honra ser o senhor do coração. Mas não de qualquer um, mas sim do seu. Você que lê essas palavras ou mesmo você que as escuta. Ou você que as esquece...

Porque hoje eu lembrei do vento fresco da praia, da lua tocando o mar, do céu limpando a tristeza. Porque hoje eu ando triste. Porque hoje eu te vi sem querer.

E te perdi de novo.

E sei que continuarei te perdendo, até que um dos dois morra. Ou desista...

Por que escrevo se já não consigo? Por que choro se não é mais preciso? Por que espero alguém, se eu já não mais existo? Por que ainda me importo? Por quê?

Vou me desencontrando e sumindo, depois me encontro e converso. E novamente me perco. Ouço os diálogos irônicos, ouço os gritos de uma briga, ouço o arrependimento no palpitar de uma vida. Sinto o cheiro de nostalgia. E da melancolia. E da minha ruína.

Se fiquei trancado em um excruciante invólucro, se me desviei do que tentava alcançar. Digo com uma honestidade intrínseca: não pretendia isso. Na realidade, certos fatos não foram imaginados nem mesmo em completa agonia. E agora, querendo ou não, o que eu vivo é uma insensível agonia.

Eu quero gritar.

Eu quero urrar de dor, de pranto, de descontentamento... E alegria.

Só peço que possa fechar meus olhos. Dormir a tarde e confrontar a mais silenciosa noite. Peço que meus medos me assolem e me inspirem terror, para que no futuro eu consiga vencê-los. Consiga massacrá-los ao melhor estilo da vendeta. Peço que minha força ultrapasse meu controle, que ela ganhe espaço e confronte mão a mão alguns irritantes paradigmas.

Depois, ficarei cansado de pedir, cansado de tentar, de olhar, ouvir, silenciar, chorar, vestir e amar.

Não me cansarei somente da solidão.

Pois as sombras se tornam mais fortes nessa noite linda. O tempo passa. E eu fico admirando o deslumbre que é a ausência. O descompromisso. Uma liberdade sacrificada pela qual estou disposto a doar minha morte e minha amada, meu dia e minha nação, meu segundo e minha sabedoria... Minha fala e minha tola ação.

Eu sei que detalhes transcritos aqui não fazem sentido ou sustentam razão. Eu simplesmente sei. Mas, é dessa maneira que o meu mundo funciona e respira. E se ilude.

E nessa loucura, esbarrei em um espelho. Pude escutá-lo se estilhaçando, e apreciá-lo no chão, como um quebra cabeças. Ele era opaco. Grosseiro. Mesmo assim, possuía um charme translúcido. E foi nesse espelho que profetizei minha amargura. Chorei a secura de meus lábios e o óbito de meu conhecimento. Chorei de raiva. Cortei os pulsos e o sangue não escorria. Pedia socorro, mas a voz se calava. Morria indigente quando o sol se punha.

E me tranquei nessa meia-noite enluarada.

29 novembro 2009

Com licença, minha tristeza

Desculpe interromper. Sei que é grosseria de minha parte atrapalhar um momento qualquer da sua vida, mas não há como conter essa ânsia que cresce em mim. Sinto-me tão despreparado para declarações que perco o fôlego e as palavras saem confusas de minha boca. Sendo honesto, simplesmente não vejo motivos racionais para tal atitude, tirando, é claro a vertiginosa vontade de olhar em seus olhos e pedir seu silêncio junto ao meu, num coro de sossego e harmonia. Ou mesmo uma última foto de nós dois, abraçados e embalados por completa alegria.

Quanto tempo faz que seus tapas leves e suas risadinhas travessas não invadem minha intimidade?
Quanto tempo faz que sua boca não tenta encontrar a minha e nossa sincronia é quebrada por um barulho, sobressalto?

Tempo demais, com certeza. Mais que demais, um exagero que gerou uma saudade engasgada no meu peito, um último adeus que continuou no meu lábio, travou na ponta da língua, e hoje engoli a seco. Foram tantos momentos, tão intensos, tão coloridos de sentimento. Por que acabou? Por que chegou ao fim se o fim só acontece quando tudo dá certo? Por que meu mundo caiu enquanto o seu ainda gravita ao redor de outro Sol? Por que, na melancolia que sinto, percebo ser apenas figurante, se as cenas que voam fizeram parte de meu filme?

Por que tantas perguntas?

Porque sempre a perda me envolve em agonia, afinal, perder é natural do homem, é esforço que se torna indiferença dos outros, fracasso de quem não consegue reconhecer o suor e a determinação alheia. A perda nada mais é que um estado transitório no qual o ser entrega-se em seu “todo”, sem pensar, sem sentir, sem falar... Apenas aquiescendo uma decisão imposta, uma idéia torta que assombra a alma dos artistas. Mas, por que, então, eu me permito sentir o peso da perda?

Porque eu me importo. Preocupo-me, e várias vezes fico frustrado. É normal, sou assim. Que posso fazer para mudar essa maneira que possuo? Esses tiques, manias que acometem meu espírito, eles compõem o meu caráter, eles estão presentes nos meus sonhos. E o irônico, é que ultimamente tenho sonhado em ter você ao meu lado, vivendo comigo nesse mundo encantado, mesmo que para isso seja necessário abrir mão dos meus trejeitos irritantes.

Como disse, não há explicações racionais para todo esse falatório. Talvez, o motivo provavelmente se encontra no amor que sinto por ti. Pois sim, eu te amo muito. E sem esse seu amor não sei andar, não sei viver, não sei parafrasear meus sentimentos, não sei clamar por ajuda. Sem o seu amor, eu perco a noção de amar, de existir. Eu me derreto em futilidades e erros constantes.

E a única questão me assola sem parar é:


... Por quê?

20 novembro 2009

...

...Há vezes em que nem mesmo as palmas são capazes de amenizar a ânsia que a perda nos causa...

Eu`s

Quantos Eu`s existem dentro de um Eu? Quantos demônios internos é preciso criar apenas para aliviar a culpa dos próprios erros? Quantas consciências paralelas são necessárias para compreender a alma e o coração, sem temer a razão e a lógica?

Aliás, por que é preciso entender tais fatos, se a vida é efêmera, transitória? Por que me preocupar em viver aquilo que daqui a pouco irá tornar-se poeira temporal? Por que perguntar tanto se já não há respostas que satisfação minhas dúvidas e minhas palavras?

Por amor, talvez. Ou devoção. Ou compaixão.
Ou mesmo moral. Ética.

Ou então, numa possibilidade remota... Simples e surpreendente humanidade. E... Pooof. Tudo se resolve. O mundo vira um horizonte mais divertido.

Mas os Eu`s internos ainda vagam por ai... Os demônios nunca descansam. E as consciências insistem em explicar coisas que não se explicam...

14 novembro 2009

Arte de Viver


... Então, quando todo o palco foi armado, as luzes apagadas, a banda preparada, no camarim os atores fervilhando em euforia (com característico friozinho na boca do estômago) e as coreografias prontas a serem executadas... Eu esqueci minha fala.
Tive de apelar para o improviso, lutar contra o meu riso e enfrentar uma platéia rigorosa.

Naquela noite, a casa estava cheia, com gente saindo pelo ladrão. O começo foi maravilhoso, uma trilha sonora impactante ao som de uma bela voz. Mil e um passes de dança decorando os olhares espantados de emoção. Eu assisti de um canto, esperando o momento certo de minha entrada. Um século inteiro estendeu-se diante de mim em um minuto de espera angustiante. Pensei que nunca iria chegar à hora.

Mas chegou.

E, sem querer fiquei surpreso ao notar que passou rápido demais, depois de tantos ensaios, tantas noites mal aproveitadas, tantos gritos de nervosismo, tantas pessoas desistindo, tantas outras aderindo a nossa causa. A minha causa, sua e de outros que lutaram para conquistá-la e vencê-la.

Quando terminou, muitos se queixaram de cansaço, dores, sono e fome. Isso se deu no outro, no outro do outro e no outro do outro do outro dia.

Até que terminou. E vários choraram, não queriam ver o final desse engenhoso trabalho. Não houve escapatória. Era o fim e pronto. O único jeito era ficar conformado. Mesmo que triste, a alternativa mais justificável foi essa.

Mas, para mim não há importância em justificar as coisas.

Porque aproveitei cada momento, desde o começo até o final dessa aventura. Conheci pessoas, conversei, cantei, atuei, assassinei e fui assassinado ao lado delas. Somente para, depois, nascer de novo. Tiramos fotos, rimos quando todos pediam silêncio e improvisamos uma dança enquanto aguardávamos nossa vez de entrar em cena.

E quando tudo acabou, tive vontade de fazer mais vezes a mesma coisa. E descobri que poderia e posso continuar fazendo...

Afinal, enquanto houver público, haverá espetáculo.

13 novembro 2009

Drama, saudade...

De tudo que é delírio imprudente, desespero da alma dos errantes, sonho vago dos solitários, esperança dos tolos fracos.

De tudo que é saudade, da amiúde à latente, que se manifesta de várias e dissimuladas maneiras, esperando que um coração palpitante agarre os pulsos de um pobre sujeito, transformá-lo em escravo ardente de uma paixão itinerante.

De tudo que é tempestade, fina e grossa como o pranto, ressurgi do encanto já cantarolado, uma vida de espasmos e sortilégios.

De tudo que é amor, a alegria desaparece, nasce o brilhante, cintilante e petrificado. Pois disso, não tenho dúvidas, fui vítima incansável. Lutei, mas cai, olhei, mas logo me perdi na inconsciência, tentei, mas sofri, sofri demais e por tempo demais. Agora estou em luto. Luto de você, luto de mim, luto do mundo e do que pensei em ser.

De tudo que é sagrado ao homem, por favor, transmita essa mensagem a quem possa ouvi-la, a quem possa entendê-la e apreciá-la.

De tudo que um dia deliberei, peço incessantemente, compreenda a minha saudade, pois a quem eu a dedico os ouvidos me negam escutar. E, pelo bem de minha memória aventureira, há de o tempo tornar essas palavras pura e clara poesia.

03 outubro 2009

irracional

A felicidade é o sonho dos tolos.
A esperança é o alento dos desordenados.
O caos é a realidade difusa e torturante que nos mostra um mínimo feixe de pura e cintilante humanidade.
Salvem-nos então dessa loucura desvairada.
Precisamos de auxílio.
Precisamos de conforto e retaguarda.
Precisamos, desesperadamente, da merda da razão.
Pelo menos uma vez, a razão...
Simples e completa, discreta em uma perfeição coberta de cor e especulação.
Mediocremente abandonada, e agora intimada a prestar esforços aos seus portadores imprudentes.
De fato, nós somos uns imbecis e a razão é uma merda que necessita ser manuseada com cuidado e devoção.
Ou, talvez, ela não seja isso tudo,
Talvez seja... Básica. Nem precise de manual para ser compreendida.
De qualquer maneira, a razão é a razão de nossas respostas.
Merda de novo!
Não entendi nada, e você?
...silêncio...

Testamento

Eu sempre quis sonhar.

Nunca pude. Não tive oportunidades. As chances eram escassas. Antes a droga da censura me impedia de voar nas nuvens. Hoje o porcaria da globalização me leva a esperar na multidão uma resposta. Outra chance. Antes era falta de decoro. Hoje é imprudência. Antes era vadiagem. Hoje é piada velha. E vadiagem também. O fato é: por que insistem em criar pessoas descrentes no sonho? Por que não aceitam a condição de homens que choram, mulheres que trabalham, filhos que se rebelam, crianças que querem saber de onde vieram? É tão contraditório? É tão perturbador? Mas essa é a verdade, a realidade encoberta pelas boas maneiras. Seria errado negar as provas?

O mundo mudou. A inocência não passa de desculpa dos tolos. O poder é de quem vence, quem é mais forte, capacitado, inteligente e agressivo. Esse poder, na minha sincera opinião, pertence aos animais. Por isso se vê tanta falsidade e escândalo na televisão. Porque todos não passam de animais fora das jaulas. Desculpe esse desabafo. Cansei de ficar calado diante da decadência psicológica e da deterioração moral. Afinal, logo posso ser vítima disso. Portanto gostaria de deixar minhas últimas palavras enquanto homem decente. Ser humano que pensa e tenta fazer. Todos são produto do produto do mercado. Sinto que minha hora se aproxima. Talvez vire mais um, entre tantos outros.

Contudo, enquanto não me transformarem, eu continuarei tentando sonhar...