06 julho 2012

Um Belo Casal


Ele acendia uma vela.
Ela acendia um cigarro.

Ele tomava um café.
Ela tomava um conhaque.

Os dois resumiam-se.

Suas vidas entrecortadas faziam sentido nas noites de inverno.
E no verão, um sussurro no meio da madrugada fazia-se parecer carinho.

Não se odiavam.
Apenas respeitavam-se afetuosamente.

A única coisa que bebiam juntos era Coca-Cola,
Enquanto jantavam pizza
Em um apartamento escuro.

Com algumas velas acesas.
E pontas de cigarro espalhadas pelo chão.

19 janeiro 2012

Saudosas Putas de Janeiro

Toda noite ele tomava uma xícara de café
Antes de dormir.
-Seus olhos gritavam o verão lá fora
E o verão gritava o mesmo que os olhos:

Pleonasmo.

Não que fosse errado matar-se em nome de outro suicida
Não que fosse divino cantar o pecado da luxúria.
Entretanto, ele sentia medo, e seu estômago arrulhava
Feito pomba, voando de si para o fim.
Talvez, à noite, sua avó aparecesse
Dando conselhos de Madre Superiora.
Ou seus pais o censurassem.

A solidão de toda uma catedral pesava.
O travesseiro menstruava as dores todas.
O colchão abria-se em lençóis egípcios.

-Em estado faraônico, urrava.

Enfim, as Saudosas Putas de Janeiro
(putas de um ano inteiro)
Entregavam-se aos prazeres cariocas.
Elas eram o problema:
Eram putas enfisemas, cancerígenas.
Putas mulheres, que se faziam
Muito mais mulheres
Quando não chamadas de putas.

Pois que ele escutava vindo delas,
Sussurrava ao lado delas
Sussurros de uma Paris Enlouquecida.

-O riso,
O ritmo,
A rima.

-A rara intimidade que surgia entre eles...

E todas as noites, ele tomava sua xícara de café:
Seus olhos não pregavam.
Os gritos continuavam.
Os Faraós o abraçavam.

As putas mulheres (intimamente preferidas),
(intimamente apaixonadas),
(aquelas das risadas).
Elas eram as Saudosas Putas de Janeiro
(putas de um ano inteiro)
-Que se acabavam em luxúria...

...E partiam.

12 julho 2011

Condessa

Ah, Condessa,
Por onde andam seus olhos azuis,
Seu sorriso inquieto?
E os seus vestidos,
Aqueles com rendinhas,
Babados, estampas,
Por onde andam?


Suas pernas brancas, alvas,
Descobertas debaixo do lençol,
Descobertas por um navegador.
Os brincos, as pérolas,
Jogados no chão,
Somados a nomes,
Palavras, pudores.


Exceto títulos.


Para onde foi, Condessa?
Sumiu em uma terça-feira
Britânica e chuvosa,
Deixou apenas as promessas,
Eu as recolhi e guardei
Na mesma caixa na qual
Guardo suas cartas.


Suas letras condensadas
Nos papéis envelhecidos.
O seu batom vermelho
Marcado em um guardanapo,
O mesmo batom vermelho que
Marcava em meu pescoço
A sua presença constante.


Sinto sua falta.


Escuta o que eu digo!
Escuta o que eu declamo!
Escuta o que eu grito!
Pois minha voz, sozinha,
Tenta ultrapassar o som
Dos bailes de época
E da hipocrisia calada.


O que faço sem
Sua nobreza devassa?
Sem seus apegos sutis, fúteis,
E os apelos, as risadas,
Os brindes e champanhes?
O que será de mim agora
Que nem tudo são festa e poesia?


Estou pobre e sujo.


Por que, Condessa, por quê?
As honrarias e tradições
Que a perseguem são mais importantes
Que eu?
Onde está sua fineza e educação?
Onde está sua destreza, sua beleza?
As suas armadilhas, onde estão?


Onde mora, Condessa?
Casa, apartamento ou favela?
Ainda freqüenta as óperas?
Eu costumava esperá-la
Na frente do teatro nas noites de balé.
Eu andava a brilho e a cobre,
Respirava literatura e jantava caviar.


E para onde foram os brilhos, Condessa?


Para onde foi a nossa paixão,
Que durou cem anos e
Cem notas de cem reais!
Uma paixão que viveu
À custa das malditas madrepérolas
E esmeraldas!
Eu continuo pobre, sabia?


Sabia que ainda não aprendi
A dar nó em gravata,
Que envelheço gradativamente,
Os rins param, o pulmão falha,
As córneas embranquecem.
Sinto-me defeituoso e senil.
Por pouco não me sinto morto.


Porém, Condessa,
O que mais dói confessar,
Por mais que não deva,
O que mais me machuca e consome:
Apesar dos pesares,
Das tempestades,
Das aparências e negligências...


...Eu ainda a amo, Condessa.

25 junho 2011

Bilhete Informal

Me liga, por favor, me liga, menina do sorriso doce.

Deixe que eu fique aninhado no seu colo por não sei quanto tempo. Deixe que eu sussurre bobagens no seu ouvido enquanto você estuda. Deixe que eu beije os lábios desse seu sorriso doce. Deixe que eu te segure enquanto tudo vira enormidade. O meu coração fica enorme, o seu também e eles se perdem na gente, a gente se perde no mundo. Eu me perco em você.

Mas antes disso tudo, por favor...

Me liga.

25 abril 2011

Notas Sobre a Perfeição

…Se você não é perfeito, aprenda... Se você se acha perfeito, perceba que existem pessoas melhores...

I see trees of green, red roses too.
I see them bloom for me and you.
And I say to myself what a wonderful world

***

“Hoje eu preciso lhe contar um segredo... Algo que faz parte de mim, mas não me pertence por direito, e sim por ganância...

Algo tão profundo e precioso, que, mesmo com o passar dos dias no calendário, nunca perderei, destruirei ou deixarei de amar... Esse segredo deveria ser seu, e com ele, toda a sorte de pedidos e negações, de lágrimas e sorrisos...

Não sei por onde começar... Nem o começo me basta como desculpa... As palavras escapam das vírgulas e acabo por tropeçar nos pontos finais... Perdoe-me... Essa é a única coisa que lhe peço, antes de viajar pela narrativa dos fatos...

Nunca almejei sequer uma moeda de cinco centavos, não faz bem pra alma sentir inveja, não faz bem pra mente devorar, com os olhos, o que não lhe pertence... Mas, eu caí na tentação... Deixei os anéis escorregarem de meus dedos, perdi o controle, fui longe demais e, ultrapassei a linha do bom senso.

Invadi seu espaço, furtei sua tranqüilidade... E agora...

...eu sou perfeito...

Não negarei que sou perfeito, que criei um mundo onde a lei remanescente é a perfeição. O que posso dizer? Sou obcecado por isso, essa é uma das minhas grandes qualidades.

Contudo, sempre há culpados...

...E você é um deles... Sempre me esnobando com seus superdotes e as suas supermaneiras de viver feliz e rico, e saudável, e limpo... E perfeito...

Droga, mesmo quando criancinha, eu me sentia ridicularizado pelo seu jeito What A Wonderful World de viver... Não pude superar o trauma, meu sangue todo fervia por essa idéia tão presente em seus olhos... E, resolvi, sem mais nem menos, roubar essa tal perfeição... Devo admitir que gostei muita dela... E hoje sou um dependente, um viciado, tal como os viciados em maconha, heroína...

“... Sou vidrado por tudo perfeito...”

***

I see skies of blue and clouds of white.
The bright sunny days, the dark sacred nights,
and I say to myself what a wonderful world.


***

Numa cidadezinha, no interior de um distrito, as pessoas eram alegres. Sorriam muito, acenavam a cabeça, cumprimentavam uns aos outros, lembravam-se dos nomes de todos, caminhavam de maneira impecável...

Era lindo, um mundo sem desconfiança, sem brigas, sem poluição sonora ou visual... As garçonetes, dos restaurantes, sabiam exatamente o que cada um pediria. Os banqueiros tinham uma noção, exata, da quantia que o cliente iria sacar, no banco. Os farmacêuticos tinham a dose necessária de qualquer remédio...

As mulheres eram ótimas donas de casa. Os homens, ótimos provedores. Os filhos, adoráveis criaturas, que não respondiam aos pais...

Os cachorros só latiam se houvesse ladrão, mas não havia roubos lá...

Os policiais eram incorruptíveis, o prefeito era gentil, o pároco muito honesto, os fanáticos religiosos sempre muito ponderados...

As estações eram muito lindas: a primavera com seu ar de harmonia, o verão esbanjando vida, no outono as folhas secas ganhavam brilho, magia e, no inverno o céu azulado e frio resplandecia... Não havia um só dia em que as intempéries da natureza deixassem o mistério de sua plenitude...

-Oi, prefeito Timóteo!

-Boa tarde, madame Joana. Como vai o Ricardo?

-Muito bem, obrigada! E sua esposa?

Todos assumiram um método voyeur neoclássico, menos ultrapassado, mais distante... Pois, apesar das perfeições, as pessoas ainda se diferenciavam pelo olhar vazio, o rosto apático, uma fachada mal feita de uma ilusão temporária...


***

The colors of the rainbow are so pretty in the sky.
Are also on the faces of people walking by.
I see friends shaking hands sayin' "how do you do?”
They're really saying "I love you".


***

“Eu nunca quis te machucar, essa nunca foi minha intenção... Se o magoei quando pequeno, por favor, me perdoe também Essa historia de perfeição, de esnobar e... Isso não existiu, eu e somente eu, sei quantas vezes falhei ao tentar lhe impressionar, ao tentar me impressionar...

Sou antítese da calma, o contraponto da esperança, a desilusão da vitória, sou um verdadeiro fracasso... E agora, mais do que nunca, me sinto um lixo... “Foi uma troca injusta, errada, porque eu causei esse problema, que agora é seu também.”

“Não se culpe, eu aceitei toda a situação muito bem! E sim, foi uma troca justa... Você me deu sua perfeição e, eu te dei minha sanidade... Onde está o erro? Rio só de pensar que... Que...

É hilário, cômico. Fantástico. Insensato...

Perfeito!”

***

Apesar da falsidade vivida pelos moradores da cidade pequena, nada nem ninguém poderiam perturbar a ordem vigente... Até que um dia, apareceu um sujeito mal vestido, mal encarado, mal olhado...

Daí em diante, foi desencadeado um efeito dominó. A população, em estado de catástrofe, começou a tomar providências... Não havia uma só pessoa que discordasse das ordens do prefeitinho quanto ao tema: cuidado com o forasteiro...

...Uma bela noite, quando todos pensavam em recostar suas cabecinhas no travesseiro e dormir, sonhar... Um barulho sobressaltou uma vizinha já velhinha, coitadinha, toda cheinha de rugas, com fofocas na ponta da língua...

...E nesse instante ela surtou... Pegou seu pequeno revólver prateado, carregou-o e, sem pensar duas vezes, saiu noite afora...

-Quem está aí?- disse com sua voz rouca... A voz também parecia ser enrugada...

...Silêncio...

-Quem está aí? Responda!- a essa altura, alguns vizinhos haviam acordado... - Se voc... Ahahahahhaahahahah- ela foi surpreendida por um vulto alto e maltrapilho...

PLIM, PLIM, PLIM...

Três tiros.

Um alvo.

Uma morte.

Um escândalo...

O prefeito chegou o mais rápido que pôde, afinal, ele era gordinho e baixinho, portanto, ele não era atlético...

-Tudo bem, tudo bem... O pior já passou agora ele não nos oferece risco nenhum...

E, naquele vilarejo sem dono e sem endereço, as pessoas sentiram o significado de perfeição, uma coisa que, sem dúvida, não os cabia, nem os rotulava... Era mais uma palavra, mais um vocábulo retorcido e gasto...

E, o prefeito ficou a consolar a velhinha, os senhores, despertos, davam um jeito no cadáver indesejado, as outras donas de casa faziam uma roda em volta da boa samaritana e de seu consolo gorducho, as crianças choravam. Logo, a vida voltaria às ordens de sempre...

...Realmente, o pior havia passado...


***

I see babies cry,I watch them grow,
they'll learn much more than I'll ever know.
And I think to myself what a wonderful world.


***

“Acho melhor você descansar...”

“Não, eu quero estar acordado quando acontecer... Quero sentir na pele...”

“Certeza que é isso que você deseja?”

“Certeza absoluta... É isso que eu mais quero... No momento... Afinal, vai ser apenas um choquinho, não é?”

“Não, vai ser uma injeção na veia... Talvez você sinta uma picadinha, nada além... Por quê? Algo lhe assusta?”

“Não. Na realidade assusta sim… Sim... E se... Apenas se... Eu não for perfeito?”

***

Yes I think to myself what a wonderful world.
And I think to myself what a wonderful world

Enquanto Tentava Esquecer

Foi quando eu sonhei com você.
Cai do céu e fui parar em seus braços, no meio do mar.
Seu sorriso iluminou brevemente os restos de mim.

Recolhi, então, as palavras soltas no ar,
Pois as a aves dançavam no céu aflito e alaranjado.
O dia morria, sem mais preâmbulos, enfim.

Shakespeare diria que é mais um pouco de Romeu e Julieta?
Ouço, ouço.
Não ouço nada.

Minha respiração lenta dá voz ao vento que bate nas árvores.
Ou dá silencio.
Tudo se cala.

Hoje, um dia de comemorações, é permitido matar.
Eu mato, de jeito furtivo, fujo distraído para o sol e morro.
Novamente, sinto o fim de um sentir, que parece o começo de tudo.

Preces, preces, Deus há de me atender.
Sou seu escravo, rendido pelos prazeres de pensar.
Sou um touro, valente touro de cristal.

Cuidado, posso lhe quebrar, ou você me quebrar, ou quem sabe os dois.
Esse não é o ponto final.
Não há ponto.

Soa triste como um violoncelo velho, que perdeu as cordas.
Sem som, sem cordas.
Sem as minhas cordas de paixão.

Ah, triste do romântico que resolveu romancear,
Afinal, a vida é constantemente excitação,
Feita de energia, fogo e o azul noturno da saudade.

Quem diria, a saudade é azul? Sim, ela é azul bem escura.
Tal como o mar onde você me encontrou.
Onde eu cai e te encontrei também.

Onde nós nos beijamos.
E encontramos o que faltava em nossas vidas.
O que nos faltava na morte de um novo nascimento.

Eu não quero mais morrer.
Eu quero você.
Em tempo integral.

Basta de socialismo; as greves já não me encantam.
A política é a mesma, irei me conformar com o tempo.
Os pequenos detalhes é que me interessam agora.

Eu faço parte deles.
Todos nós, sem exceções.
Ainda sorrio ao lembrar a água salgada em nossas faces.

Foi um belo sonho.
Numa noite de verão?
Talvez chovesse de madrugada...

Você sabia que a saudade é azul?

31 janeiro 2011

Por Pura Arrogância

“Preciso dizer uma coisa”

“Diga”, disse ela, sentada na grama enquanto ele, de pé, encarava os próprios pés.

“Eu te amo”

“Eu também te amo, você sabe disso”, ela estava visivelmente espantada com a declaração, óbvio que ele a amava... “Você é meu confidente, meu conselheiro, meu ponto de equilíbrio...”

E, com os olhos pesados, as mãos trêmulas e a saliva amargando em sua boca, ele disse “E, infelizmente, somente seu amigo”
A boca dela se abriu ligeiramente, o pensamento vagou por instantes que duraram horas. Nenhuma palavra, talvez uma risadinha triste. Melhor não. O que diabos ela acabara de escutar? É possível que isso tenha sido dito? Ai, não, não, por Deus, não...

“Sim”, ele captara seu olhar quase desesperado, sem ao menos saber que palavras viriam. Na realidade ele sabia. Esse era o problema, ele sabia exatamente tudo o que ela faria. Só não admitia saber o final dessa história.

“Eu não... O que você quer que eu faça? Eu...”

“Eu sei o que você vai fazer, apenas quis desabafar”, sua barba a fazer dava-lhe um ar de cansaço.

“Nós... Realmente, nós somos apenas amigos. Apenas.” Ela sussurrou as sílabas, tentando, com cuidado, não machucá-lo.

Ele girou nos calcanhares e foi embora, sem mais explicações ou despedidas.
E então, eles nunca mais se viram.

Ela tornou-se médica, casou-se, teve dois filhos e depois descobriu que o marido a traía com a estagiária de seu escritório. Mas manteve o casamento, sem nunca esquecer aquela declaração feita no final de uma tarde quente de fevereiro.

Ele... Bem, ele tornou-se um suicida em potencial, divorciado, rico, sócio majoritário de um conglomerado empresarial onde, por acaso, o marido dela trabalhava como subordinado em um escritório local.

Ele sabia do caso do marido também. Ele até conhecia a estagiária.

Ele ria por fora, sorria dessa situação toda e imaginava o que teria acontecido a ele se ela tivesse dito “eu te amo”.

Mas por dentro...
Por dentro era só dor.

Sempre.

29 janeiro 2011

Flor de Narciso

Todos tem segredos.

Íntimos.
Doces.
Encantados.
Até os mais transparentes e indomáveis carregam, no fundo do bolso, uma caderneta preta repleta de detalhes escusos. Restos de infâmia e loucura...

Mas nós não.

Nós somos a exceção dessa regra formidável.

Ultrapassamos a luxúria escarlate, feita a imagem e semelhança da cobiça, e conceituamos, de maneira indecente, a sensualidade.

O que temos é um jogo de poderes e desilusões.
Um samba de quintal, manso, malandro.
Um pouco carioca.

Ou talvez não tenhamos nada.
Apenas um ao outro,

Será que é isso?
Será que não?
Prefiro dizer que somos, simplesmente, queridíssimos por esse mistério tão complexo e desajeitado.

Somos desejados por todas as pessoas que respiram, que nos comtemplam, que nos refletem.

Porque somos assim, sem mais ou menos.
Porque não exigimos nada exorbitante, quiçá amizade.
Porque existem mil e um motivos que nos definiriam entrelinhas.

Nós somos entrelinhas.
Somos, seremos, fomos.

Quase intocáveis.

17 janeiro 2011

De um tempo que não é mais dela


Foge de mares escuros.
Na estrada, durante a noite,
Ora a Deus.

Sua prece será em vão?

Encontra-se sozinha porque quer,
Porém é muito bem casada
Com as teias da psicologia.
Os teoremas são seus irmãos.

Vive perto de livros,
Mas a morte continua a persegui-la.
Desistiu do romance,
Do amor, das rosas e alianças.

Hoje respira aos pulos,
Mas só se pode pular enquanto há pernas.
A doçura há muito deixou de ser rotina.

Não existem mais lágrimas,
Ou carinho,
Ou esperança.

Seu nome não foi dito da primeira vez.

E não será dito agora.
Em seu epitáfio estará escrito:
“In Memoriam”.
E basta de explicações.

Esqueceu-se das boas maneiras,
Lambuzou-se em insanidade.
Toma banho em bacia de ouro, no meio da podridão.

Foge, foge sempre.
Só o ódio a alimenta,
Uma perfeita Amazona.

Ainda ambígua,
Ainda sem rumo.

Minha eterna, amada e intransitivamente
Única.

31 dezembro 2010

30 dezembro 2010

...

Está tudo tão abstrato, ou eu preciso de um novo óculos? Quem se importa, afinal, após passar uma noite inteira regado a Dylan, Pink Floyd e Radiohead, é necessário dormir, comer, pensar?
Não, somente sentir! Acho que preciso de férias, ando muito cansado. Mas estou de férias, portanto eu preciso... de que? Essa sinceridade exagerada ainda me mata...
Vou beber alguma coisa, talvez distraia minha cabeça, talvez eu desmaie.
Sempre o bom e velho "talvez"!!
"Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Acredito no coração"

...

o limite da morte é o diabo do medo;
o limite do medo esbarra na doce liberdade de existir;
enquanto passa, eu vejo o tempo,
enquanto é tempo, eu passo rápido;
atravessei a rua sem olhar para os lados;
Deus me disse "cuidado filho";
eese é meu limite;
limite de mim e fim;
ponto, merda. Acaba-se em sonho, em desejo,
algo inenarrável;
sim, sim;
só isso e mais nada
afinal, a morte me espera também.

29 dezembro 2010

Uma carta sincera

O tempo rompia-se em raios amarelos de sol. Era manhã e eu estava exausto, após tanto pensar em você, minha pequena. Desde cedo, muito cedo, na realidade, mais cedo do que gostaria de admitir, venho sendo tragado por essa sua poesia irreversível.

É lindo, minha pequena, simplesmente lindo. Só de pensar em querê-la e tê-la pelo menos uma vez, com sorte, duas, fico extasiado. Talvez um dia você entenda as palavras tontas que escrevo aqui, de maneira tão tonta. Seria desleal descrever o que sinto, porém, uma infidelidade tremenda se não externasse tais emoções. É tudo muito complicado, mais complicado que explicar seu primeiro porre para alguém, afinal, porre é porre, e o primeiro é sempre o mais divertido. Não que você me deixe bêbado, lógico que não, mas a minha atração por ti é maior do que meu orgulho machista gostaria de revelar, minha atração por ti é tão física quanto emocional, um emaranhado de abraços e ilusões... Será que isso existe? Às vezes me pergunto se é tudo invenção da minha cabeça. Se fosse, que fosse sem fim, que fosse nessa bossa nova que só eu entendo.

Porém, não posso perder o foco. Escrevo agora, no começo de um novo dia, com novas pessoas, novos carros no trânsito, novos prédios explodindo, novas crianças nascendo. Escrevo agora porque há milhões de novas miudezas acontecendo e só me importa pensar nos seus olhos, que são os mesmos, os seus cabelos, que continuam da mesma forma, teu sorriso, enfim... A mesma que eu conheço e pasmo ao ver, com tantos detalhes diferentes, interessantes. Provavelmente entrei em contradição, mas você é assim! E me deixa assim também: deliciado, louco, muito mais louco do que, de fato, sou. Talvez seja esse mistério que te envolve, talvez a falta de mistério que te mascara, talvez eu que não saiba definir. Não é paixão, entende? Tampouco ódio, mas mesmo indeciso, entendo que existe algo, um tênue sentimento, que ganha proporções a cada dia.

Quem sabe em outra manhã ele exploda e eu morra de felicidade. O que você acha?

Estou sendo sincero, o mais sincero possível! Sinto falta, ciúme, paz, será que você pode me explicar o que é isso? Mas não estrague, por favor, pois estou me divertindo. Ultimamente tenho escutado música, de todos os estilos, e as que eu mais gosto são aquelas tranqüilas com ritmo de praia, violão ao fundo, cheiro de mar, vento fresco e a voz suave no refrão fazendo coro à minha. É tão natural, como respirar, dormir, comer.

É natural como poesia, e eu nem gosto de poesia. Estou rindo nesse momento, sabia? Espero que saiba, espero que sinta. Desculpe se sou um transtorno, um erro patético, mas, se devo ser sincero, não gostaria de me desculpar. Sou eu mesmo, só eu na mais completa imperfeição de ser.

Escuta comigo um pouco da música. Consegue escutar? Agora o cantor sai do compasso e fala palavras bonitas, quase estúpidas! Continuo rindo.

Desculpa-me se eu não sou perfeito, não tenho as qualidades de um campeão.
Desculpa se eu não sei dizer “te amo”. Mas e daí? Há outras expressões até mais bonitas do que essa.

Ou não.

Tenho que ir, estou com calor e com fome e com os olhos doendo. Daqui a pouco vai chover, tenho certeza, esse sol não me engana. Vou para casa. Vou para qualquer lugar. Por enquanto estou sozinho, desacompanhado. Mas o sorriso ainda está aqui, bem colocado no meu rosto, rindo de tudo, sorrindo pra todos.

Pra você, pra mim...

Pra sei lá quem, sei lá onde, sei lá.

“Hey, hey, hey

Your lipstick stains
On the front lobe of my left side brains.”

24 novembro 2010

Distante

Feito sopro, partiu voando.
Despido de pudores, sumiu entre nuvens e querubins,
Colecionando olhares curiosos
Dos desatentos seres mortais
Que, esperançosos, pediam socorro.

E recebiam maldade.

Ele, sem nome ou descrição,
Pedia, entre estrelas e constelações,
Um sempre vivo gosto de viver.
Já que vida é uma questão metafísica,
Explicada pelos metafilósofos, que na metalingüística
Encontravam respostas.

Mas ele nunca gostou de metas.
Preferiu, desde criança, as aventuras do invisível.
Poetazinho de nada, sujo de lama,
Via brilho na desgraça mundana das palavras simples.

Dizia-se socialista.

“Aos ricos devemos tirar cifras,
Aos pobres, dar carinho”

E a mim, um pouco mais de amor,
Constantemente amor.
Uma entrega insaciável de paixões carnavalescas.
Com cores e deslumbres diferentes.
No abre-alas, as orgias da paz.
Na bateria, o anseio sorridente.
No grand finale, as sobras de alegria
Despejadas em jarras douradas.

Muito carnaval!
Pouca infidelidade!

Ele foi embora mesmo assim.
E não há quem mude tal fato.
Ele deixou de lado seu ideal.
Tornou-se indigente no caleidoscópico
Existencialismo fútil.

Sua presença foi dita desnecessária.
Portanto, desapareceu sem deixar vestígios.

O anárquico idealista esqueceu-se
De como deveria amar.
Deprimido, largou tinta e pena,
Papel, relógio, calendário e roupa velha.
Colocou seu coração num envelope
Com destinatário.

Mas a entrega não aconteceu.

Na infinidade da censura,
Deparou-se com a hipocrisia dos leigos.
Achou graça disso, brincou.
Mas, por dentro, chorava a insanidade
Dos loucos bêbados.

Bêbados trépidos e...
...Circenses.

A última criatura que o viu
Foi a Lua.
Contam que seu rosto estava vermelho,
Seus olhos inchados.
Lágrimas escorriam por entre as bordas
De solicitude que sobressaiam de seu sorriso
Infeliz.

Talvez paixão.
Talvez fim.

E ela lhe disse, do alto de sua prateada
Sabedoria milenar, com todas as palavras:

“Vá com Deus...”

25 setembro 2010

Do Tempo Dela


Contava romances cinematográficos.
Chorava sem querer, por motivo algum.
Brincava de amor, amar, fingir e ser. Mas só brincava.
Ria, ela ria coitada. Mas os outros não riam junto.

Seus átimos de alegria e tristeza, seus picos de aspereza e lonjura.

Seus instantes.
Íntimos demais.
Doces demais.

Se cantava, o fazia por distração.
Se chovia, corria para a rua. Gritava por gritar e viver.

Estava cansada.
Estava sozinha e desolada e ambígua.

Prendia os cabelos e soltava-os.
Enrolava-os nas mechas de paixão que pendiam de seu sorriso.
Sonhava de vontade, de prazer.

Era a beleza inconsolável.
A fineza justa e bem-medida.
Sua Majestade vivia de infinito.

Infinito sempre, sempre até morrer.
Talvez princesa.
Amante, amada.

Enclausurada nas nervuras da incompreensão.
Sim, enviuvada de namorados de ilusão.

Completa noiva sem altar.

Criança, menina, mulher.

Única.

27 julho 2010

A Angústia de um Anjo

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
Afinal, que vale um peito inerte diante da saudade?
A morte da ternura, frente à angústia da incerteza?
De que vale a explosão de um “sim”, comparada
Ao mais sombrio “não”?
Infelizmente, sem seu sorriso, o teatro perde a arte,
O circo deixa de ser engraçado e o palhaço fica triste.
Sem a sua presença, o anjo perde as asas...
E caí do Paraíso.

Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.
E o amor fará sentido.
Minha idolatria será recompensada, e a solidão:
Meu fim e meu começo virão me buscar de braços abertos.
Então, ofegante, recusarei o esquecimento,
Com medo de ser esquecido por mim mesmo e por você também.
Galgando devagar, subirei sua escada em silêncio.
Espreitando seu sono na madrugada aveludada.
Olhando seus olhos, sem que tu olhes os meus.

Mas, quando faltar-me, de todo, o ar,
E minha voz cair na solicitude de seu desespero,
Meu coração ficará inchado por dizer adeus.
Irá buscar forças na filosofia do riso, nas zombarias do humor.
Lágrimas cairão sem que eu queira.
A magia do perdão estará presente e bem comportada.
Ficarei, aos poucos, vago, quieto.
Rezarei uma última vez, confessando pecados de homem humano e imperfeito.
E logo, minha ausência será memória...

E você... Continuará sendo a intermitente paixão de meus suspiros.

21 julho 2010

Ahnn...

"...Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só..."


...mas eu continuo só.

E sem luz na minha escuridão. Não é verdade?

16 julho 2010

O Vão da Porta 4


Turbulento... Foi tudo desmedidamente turbulento para mim. Não sei ao certo em que momento, mas agarrei-me ao seu corpo inerte na tentativa de acordá-lo. Meus braços envolviam todo o seu peito e suas costas, sua cabeça pendia, suas mãos abriam-se completamente impotentes. Lá estava eu, segurando aquele que me fez rir e chorar por tanto tempo. Lá estava eu, pranteando um sujeito inconsciente, com a tola esperança de que minhas lágrimas tardias ressuscitassem o estranho que invadia o tão conhecido aconchego da minha introspecção. Não soube o que fazer, além de chorar, claro. E também não sei explicar o motivo de tal atitude, já que ele deveria ser para mim um sinônimo de repulsa. Sei apenas que os minutos escorriam no relógio da cozinha, com aquele tique-taque insuportável...
O amarelo que entrava pelas cortinas entreabertas indicava uma manhã fria, diferente das demais. Meu coração indicava reações diferentes das demais. Meus olhos evidenciavam tal fato.
E, novamente digo: tudo que fiz foi esperar um maldito milagre. Ou um sinal de que ele não voltaria a me olhar com o tão inflamado jeito de apaixonado arrependido. Em português claro: esperava vê-lo morto, quem sabe assim eu não me colocasse em posição de risco outra vez, não me humilhasse diante de um mero sentimento. Se ele morresse, sem dúvida, eu sentiria dor... Uma dor jamais experimentada por mim ou por qualquer maldito poeta, escritor, filósofo.

Porém, seus olhos abriram após dois ou três minutos. Dois ou três longos, aflitos e nostálgicos minutos de reflexão.

Silenciosamente, seus olhos foram abrindo pouco a pouco, mostrando o clarear da vida. E é justamente essa à hora na qual me encontro.
Minhas pernas estão dormentes, meu rosto está inchado, meus lábios úmidos pelas tantas lágrimas que continuam brotando sem que eu me esforce ou queira. Meus pensamentos disparam feito tiros no meio da escuridão. A mais profunda escuridão que já enfrentei. Uma obscuridade permeada de arcanjos caídos, corrompidos pelo medo de sentirem-se mais e mais humanos... Ou, o meu medo de ceder novamente às tentações.
“Oi...” Suas palavras saíram inesperadas, fragmentando meu raciocínio obtuso.
“Não diga nada agora, por favor.” Meu pedido foi sincero, visto que eu precisava esclarecer alguns pontos, antes que ele se levantasse e caminhasse pela minha sala. “Eu queria... Dizer algo que está preso na minha garganta. Preciso desabafar, porque é impossível continuar dessa maneira tão insuportável. Não posso olhar para você sem lembrar do que houve, quando éramos jovens. E, de repente te vejo na minha porta, esperando um convite de boas-vindas com o meu melhor sorriso de surpresa. Maldita surpresa! Meu universo ficou em choque, eu fiquei em choque!” Preciso fazer uma pausa de vez quando, escolher as melhores palavras e organizar as idéias para não perder a compostura (porém, é impraticável não transparecer a minha fraqueza, pois ele me deixou fraca).
“Se tivesse que fazer um apanhado geral, recapitular os últimos episódios de minha vida e dizer o motivo exato pelo qual os vivi, precisamente neste instante diria que foi tudo por você. Cada agonia enfrentada, cada palavra de solidão, a própria solidão, enfim, todas essas desventuras foi você quem causou, querendo ou não.”

Mais uma pausa dramática. Não sei quais termos usar.

“Quando menina, meu único sonho era encontrar o famoso príncipe encantado das fábulas. Na realidade, eu esperava que pudesse viver em uma constante fábula. Não tive tempo de conhecer meu pai. Meu avô sempre teve uma saúde frágil e minha mãe, bom... Você sabe tão bem quanto eu que ela vivia à custa de sua ilusão. Mas minha infância foi boa. E minha adolescência foi melhor ainda, principalmente depois que te conheci. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que nos vimos: estávamos em lados opostos do corredor, andando cada um com seus materiais e suas preocupações. Esbarramos-nos e eu te olhei de um jeito feio. E voltamos a nos esbarrar mais umas três ou quatro vezes (em uma delas eu tropecei, você quis me ajudar, mas recusei por orgulho...). Conversamos, como duas pessoas normais (como se adolescentes pudessem ser normais) na festa de quinze anos da minha amiga, que te convidou somente para nos conhecermos bem...” estou rindo, confusa e melancólica. Ele parece estar recordando esses dias dourados. Acredito que assim funcione uma iminente recusa: você diz que precisa despejar as tais verdades abruptas, começa com o passado mais que perfeito em que ambos vivam paixão, imprudência, aventura e romance. A pós-memória, porém, é outra história.

História essa pertencente ao particular dos casais... E o meu particular determina que eu continue falando de dias nos quais nos amávamos e rolávamos na grama sem as atribulações existentes hoje. Sem as despedidas que não foram dadas... As partidas repentinas...
“Escuta, por...”
“Não, não fale nada, por favor, deixe-me terminar, antes que isso me consuma, antes que eu não consiga respirar sem olhar o nosso caso mal terminado. Afinal...” Não chore, não chore, agüente mais um pouco, falta muito pouco...

Caí em fraqueza, sucumbi diante de minhas próprias desculpas.
Chorei.
Por um átimo de segundos, me arrependi de todos os erros cometidos.
Entretanto, logo essa sensação viajou para além de minha compreensão. E sumiu...

Ele se levantou ainda meio zonzo. Não pude e nem quis ajudá-lo. O que senti foi mais forte, arrebatador, eu diria. E continuo sentindo. Falar com lágrimas quentes rolando de seus olhos, passando pelo nariz, escorregando e invadindo cada canto do seu corpo como um intrometido que vigia, vasculha e sente prazer em vê-la sofrer piora em muito as condições de quem pretende argumentar...
Ou seja, não estava em condições de dialogar. Ainda não estou. Descrições são de bom tom, não é? Pois bem, mesmo com a visão embaçada, vejo-o sentado no sofá que fica exatamente ao meu lado: está com a cabeça baixa outra vez, provavelmente pensado no que eu estou pensado, tentando processar todos os fatos, todas as recordações e, esforçando-se para não chorar junto comigo.
Sim: essa situação toda pode parecer um extenso monólogo, mas as condições, as palavras, a paixão por trás da paixão. Tudo isso me motiva a continuar projetando um falso amor, uma esperança frágil, sensível como eu, doce da mesma maneira como eu era doce antes de me encontrar na solidão.

Está na hora de retomar o controle. Está na hora de finalizar.
“Eu te amo, é tudo o que posso dizer em relação ao nosso caso. É tudo que me resta, sairei ferida em mais uma ocasião e, por mais esforços que façamos, nosso conto de fadas chegou ao fim. Chegou ao fim exatamente quando você evaporou da minha vida, criando pústulas em um canto muito espaçoso do meu coração.”
Mais uma droga de pausa dramática em que pensei se deveria ou não falar. Eu falo.
“Sabe, por muito tempo me questionei: por que fugi de casa? Por que abandonei os caprichos que tinha? Por que você não me levou junto contigo na sua tão gloriosa empreitada? Por que me torturei tanto tempo sentindo essa saudade latente no peito? Mas, felizmente encontrei resposta: Eu nunca quis me separar de você. Nunca quis encarar uma realidade em que nosso relacionamento, do dia para a noite, não existisse mais. Vi por vezes o nosso primeiro encontro “oficial”, por assim dizer, quando combinamos de matar aula de química e nos encontramos na escadaria da escola, aquela que dava acesso ao refeitório. Ninguém nos incomodou naquela tarde, pois só existiam nosso ardor e o singelo amontoado de rosas roubadas por ti e oferecidas a mim, o qual chamei carinhosamente de buquê. E, interiormente eu agradecia a minha amiga por ter te convidado para a festa dela, sem ao menos conhecê-lo direito, com o único intuito de me ajudar, ou nos ajudar. Nós duas conversamos até hoje, sabia? O mais irônico é que ela é casada, tem um filho e está grávida de seis meses também. E esse eu esperava que fosse o nosso final... Ficar contigo para o resto dos meus dias parecia ser um compromisso simples. No casamento dela, eu fui madrinha e não parei, um só instante, de chorar. Não chorei por ela, chorei por mim. egoísta, não é mesmo? Tudo porque eu acreditei em promessas de adolescentes bobos.”

“Não diga isso”, ele sussurrou ao pé do meu ouvido, enquanto eu, sentada no chão na mesma posição há horas, contava minhas amarguras a um sujeito que não me é mais familiar. Olhei para frente tentando digerir a última frase. Impraticável. Impossível.

Injusto comigo e com meus sentimentos.
Por Deus, em qual hora estamos? Quanto mais demorarei a chegar aonde quero? Se é que quero chegar a algum lugar.

“Na realidade, nunca quis desaparecer da vista da minha mãe, nem abandonar meu avô, minha casa, meu quarto, minha cama... Eu gostava daquele espaço e havia aprendido a conviver com as pessoas que o habitavam. Mas queria te encontrar. Queria me encontrar. Como uma garota rebelde foge de casa e deixa o celular ligado para atender quando lhe for conveniente? Simples: Ela não o faz, esquece celular, telefone, qualquer meio de mostrar as caras. Portanto eu não fugi. Apenas dei um descanso a mim. E, me tornei extremamente egoísta, me tornei uma criatura insensível.”

“Você não parece tão insensível assim. Continua a mesma...”. Não podia suportar comentários desse tipo, vindos dele. Ou de qualquer outra pessoa. Rejeitei esses murmúrios, tentei afastá-los ao máximo. Tentei...

“Sempre que escutava nossa música tocando nas rádios, eu parava, onde estivesse, como se aquela música fosse o meu hino, um símbolo de paz, um lugar aconchegante, onde as lembranças eram ternas, como em um trailer de filme americano. E todos os nossos melhores momentos voavam na minha memória. A memória da garota estúpida. Da sonhadora infeliz. Da imbecil que... da imbecil que acreditou nas suas promessas!!!!!!!”

“Não, isso não é verdade, eu sou o culpado...”

“Nós dois somos culpados, e agora pensamos em cometer o mesmo crime de novo? Que tipo de criminosos nós somos? Não possuímos a capacidade de admitir sermos péssimos no que fazemos?”

“Deveríamos experimentar uma segunda chance...”

“Não dará certo, isso te garanto. Ficaremos presos, enjaulados nessa insanidade...”, dessa verdade ele não poderia escapar.

“Cause it's you and me and all of the people
With Nothing to do, nothing to lose
And it's you and me and all of the people and
I don't know why I can't keep my eyes off of you”.


Ele cantou o refrão da música. Ele ainda se lembra. Está na hora de encarar meu problema de frente. De olhá-lo nos olhos. Os malditos olhos que sempre pedem perdão.

“Quer cantar mais uma vez?”, pergunta tola, é claro que quero.

Passar o resto da manhã cantando a música que embalou meus sonhos de jovem apaixonada sem dúvidas é um capricho diferente. Triste, doloroso, mas necessário. Por um instante pude ver a praça onde costumávamos fazer esse tipo de coisa. Vi as crianças correndo atrás de cachorros, os senhores de idade jogando damas. E outros casais apaixonados.

Porém, não tão apaixonados quanto nós dois.

O frio crescia conforme o tempo passava. O sol ficava mais forte. Lá fora, o dia passava depressa ou devagar demais. Sinceramente não reparei nesses detalhes.

Nós dormimos no sofá por três ou quatro horas, acredito.
Foi bom. Todavia, é preciso terminar.

Dizem que, ao entardecer os mais íntimos desejos ganham ânimo, fôlego de vida. Os meus, porém, iam morrendo em uma quietude sepulcral.


“Eu nunca quis te abandonar. Muito menos deixar de amar você. Apenas fui fraco...”, eu sabia disso, ou pelo menos suspeitava.
Queria crer que fosse verdade.

“Eu nunca deixei de amar você, mesmo que pareça masoquista, insano ou clichê. O que significa que eu te amo. Ainda.”

E isso deve acabar. De maneira indolor. Bom, seria ideal assim, mas a realidade nem sempre é essa.

“Já está na hora?”, sua pergunta aliviou um peso das minhas costas, como sempre acontecia quando ele via que eu não suportaria dizer algo.


“Sim... Já está na hora.”

“Um último beijo de adeus?”

Será que devo? Será que isso me fará bem?Tantas perguntas e nenhuma atitude...

O fim de tarde não ajudava a diminuir a pressão sentida contra meu peito.
Talvez fosse amor, talvez fosse ódio, ou um misto dos dois.

O tempo passou depressa para mim, para ele, para nós dois e para ninguém mais. Eu derramei minha última lágrima por ele.

Acredito que isso basta.

“Me desculpe, mas não posso...”

“Nós nos veremos?”

Uma questão peculiar. Somente o destino tem poderes para responder.
Meus argumentos acabaram. Minhas táticas também.

O melhor a fazer é abrir a porta. Esperar que ele vá embora. Desejar boa sorte e até mais ver.

Pronto, a porta está aberta novamente, porém desta vez eu a abri para que ele saía de mim, do meu coração, da minha história.
Do meu passado não, afinal ele foi lindo demais para ser esquecido.

“Cuidado para não desmaiar outra vez, sim?”
“Claro, claro...”, ele cambaleou até a porta... Que fosse charme, chantagem, não funcionaria comigo. Não mais. A partir do instante em que ele atravessou minha porta e saiu da minha intimidade, eu não o ajudaria por um período indescritível.

E saiu. De uma vez por todas.
Para sempre enquanto o sempre existir.
Para o bem dele, e principalmente, para meu bem. Para a minha sanidade. O que restou dela.

Antes de sumir de vista, ele olhou para trás uma última vez e, movendo os lábios sem pronunciar som algum, disse: “Eu te amo!”

Assisti a essa cena, querendo não pensar nem sentir... Peguei algumas pétalas do buquê, que ficaram caídas na soleira.
Coloquei o buquê em um vaso...
Lavei o rosto...
Escancarei as cortinas para observar, atenta, a noite taciturna, despertando-se ligeiramente em um azul infinito, pincelado de estrelas prateadas e vibrantes, com alguns mistérios cá e lá, escondidos.

...E finalmente fechei minha porta.

07 junho 2010

Um leitor, uma pintora e um sonho de alegria


... Era uma vez um homem. Era uma vez uma criança. Era uma vez um sonho... O homem pegou um livro, a criança pegou um lápis, o sonho continuou na memória...

***

“Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios”

***

... Os dias foram passando, as pessoas melhorando, o mundo havia voltado a girar. O sol agora sorria, as rosas já não mais murchavam, os olhares desmentiam a indiferença... Tudo fazia sentido. O próprio sentido tinha sentido. Mas o luto persistia, o homem só fazia chorar. Abandonar o seu equilíbrio, capa de cortesia, decência intimada, palavra errada?

...Seria a loucura, a beira do precipício, o grande aviso, a derrota dos inabaláveis? Mas, e o sonho, onde fica nisso tudo? A criança ainda existe? Calma, meu amigo, pra tudo há seu tempo. A beleza da poesia está na magia com que as palavras são colocadas, decoradas com sucesso, bem acentuadas, quase perfeitas, quase... Eu não sou fã de poesia.

E, tocando dessa maneira nossa prosa, a criança tocava sua arte, gostava de pintar (apesar de não saber diferenciar as cores), achava graça do azul, preferia o vermelho (apenas um borrão mais intenso). Nada lhe afetava, nem mesmo a própria inabilidade. O outono começara. As folhas desprendiam-se das árvores, ganhavam o chão, terra firme, segura. O vento açoitava as noites, a depressão arrebatava aquele ser, o luto, a profundidade do abismo, o sarcasmo, o cinismo, a falta de hinduísmo... Ele tentaria a felicidade, se conseguisse alcançar a margem dessa praia...

***

“Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador”

***

Sonho? Que sonho é esse? Que esperança ainda resta, além da ida até a ponte, o sol, o crepúsculo, o horizonte? Bom, pelo menos o sonho não está mais na memória... Agora ele é potência, carência de alguém... Mas, ele tinha planos, gostaria de idealizá-los, transformá-los em uma entidade suprema, reluzente, um sol, uma saída, uma nova vida...

***

“Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos”

***

Quando menos se esperava, a criança falou: “Papai, vem cá ver o que eu fiz... Vem papai, por favor...”, antes que as lágrimas começassem a rolar de seus olhos e delinear suas rugas, o homem, sem vontade ou vivência, abriu caminho em meio aos seus desesperos, para poder socorrer quem sentia maior necessidade... E, ele disse: “Diga, minha filha, o que você fez?”, e a criança, uma garotinha, no máximo seis anos, doce, ternura em pele clara, doçura em tamanho de boneca, alegria móvel, motivação espontânea, brilho sincero: “Eu desenhei papai, eu desenhei você, eu desenhei a mamãe, a nossa casa... Mas eu não consigo desenhar o Mike... desenha pra mim, papai? Por favor!”, “Claro, eu desenho seu cachorrinho pra você, se isso te deixar feliz...”, e, ele derreteu-se em um breve momento de ternura... “Mas, papai, isso vai te deixar feliz também...?”, ele não pôde conter uma gotícula, transparente, minúscula, carregada de dor, carregada de passado...

E respondeu: “Vai sim, minha filha, claro que vai...”.

As horas poderiam se passar, as páginas do calendário poderiam até voar, eles continuavam seu ofício, sua distração... Se o mundo acabasse naquele instante, eles morreriam felizes... Pai e filha, um ajudando o outro a aliviar o peso da perda, o amargo gosto da intemperança... Traição do destino, família incompleta, o insuperável desejo de pular por uma janela aberta...

Mas, sempre há um sorriso pra se difundir, uma pessoa a se alegrar, um monte de gente pra acalmar, uma historia pra contar...

***

“Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz”
Charles Chaplin

***

E, sem muito a desmentir, mentir, iludir uma platéia, ferir uma idéia... Era uma vez um homem que não pretendia continuar lendo, ele tentaria viver, apenas vivendo. Uma criancinha que ia pedir a ajuda de seu pai quantas vezes fossem necessárias, com isso, tornar-se-ia uma ótima pintora... E, um sonho, o sonho... Bom, esse deveria luzir, oprimir e devanear, esse era seu papel, contudo, ele havia se tornado real... Uma concretização, iluminação, as portas de um mundo inaugural...